- Conferência de Bonn terminou sem acordo, com frustração entre mais de cento e oitenta países e impasse sobre adaptação climática e ciência.
- Houve confronto geopolítico: China, Índia e Arábia Saudita contestaram evidências científicas do IPCC, em coalizão com a oposição à linguagem sobre o limiar de 1,5°C.
- A decisão sobre adaptação foi transferida para a COP31, em razão do uso da Regra 16, abrindo espaço para recomeçar as negociações.
- Avanços ficaram por conta do Mecanismo de Transição Justa, enquanto questões de financiamento e indicadores da Visão Belém-Addis ainda não foram resolvidas.
- O Brasil manteve a liderança da COP 30, e a próxima etapa ocorre com a presidência da Turquia e da Austrália, com a Semana de Clima de Londres como próximo teste.
A Conferência de Bonn chegou ao fim chamuscada por ataques à ciência, pela ausência de acordo em adaptação climática e por uma presidência da COP31 sem diretrizes claras. O encontro reuniu mais de 180 países, mas o consenso ficou longe de ser alcançado.
Especialistas destacaram a frustração generalizada na plenária final da SB64, a sessão preparatória para a COP31, marcada por decisões adiadas e impasses que atrasam a agenda para a Turquia. O clima entre negociadores foi de cansaço e descrença na possibilidade de um acordo imediato.
Para o Observatório do Clima, a maior surpresa foi a disputa geopolítica sobre a ciência, com países em desenvolvimento tentando contornar evidências estabelecidas pelos relatórios do IPCC. A oposição ganhou força na leitura de que o limite de 1,5°C, defendido pelo Acordo de Paris, estaria sob questionamento.
Ação e resistência na arena climática
China, Índia e Arábia Saudita protagonizaram o embate, usando o IPCC como veículo de contestação. A Arábia Saudita resistiu a atualizações regulares sobre ciência climática; a Índia mostrou resistência à linguagem de mudanças irreversíveis. O objetivo parecia reinterpretar a ciência para caber nos seus modelos de desenvolvimento.
Estava em disputa uma visão chamada Amigos da Ciência, formada por diplomatas de Fiji, Nepal, União Europeia, Suíça, Serra Leoa e Panamá. O grupo afirmou que as decisões devem seguir a melhor ciência disponível, apesar das divergências. A coalizão sinalizou que continuará defendendo a integridade científica no processo.
Adaptação travada e próximos passos
As negociações sobre a Meta Global de Adaptação terminaram sem acordo, com a Regra 16 transferindo o tema para a COP31. Na prática, o trabalho técnico produzido na sessão fica sem desfecho e precisa ser retomado futuramente. O adiamento afeta principalmente países vulneráveis.
Divergências sobre financiamento e sobre a implementação da Visão Belém-Addis dificultaram avanços centrais. A dificuldade expõe a fragilidade de compromissos que impactam regiões de maior exposição aos impactos climáticos.
Avanços parciais e continuidade da agenda
Apesar do cenário de impasse, houve progresso na operacionalização do Mecanismo de Transição Justa, em favor de trabalhadores e comunidades afetadas pela saída gradual dos combustíveis fósseis. O mecanismo deve ficar pronto ainda neste ano.
A atuação da presidência brasileira da COP30, sob André Corrêa do Lago, manteve o tema da transição energética em evidência, com o objetivo de manter o tema na mesa até a COP31. A condução turco-australiana chega com lacunas a preencher.
Perspectivas para a COP31
As presidências da Turquia e da Austrália enfrentarão a tarefa de definir prioridades políticas e consolidar decisões, ainda sem uma visão clara. A semana de clima em Londres, na sequência, será um importante termômetro do que pode ocorrer em Antália, em novembro.
Cláudio Angelo, do Observatório do Clima, aponta que o cenário atual não altera o fato de que a COP31 dependerá de como as próximas semanas movimentarão o tabuleiro diplomático. A neutralidade e a ciência continuam no centro das atenções.
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