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Bom senso e pânico

Mercados confiaram no bom senso antes do memorando de entendimento entre Estados Unidos e Irã; permanece risco de volatilidade e de preço do petróleo

Ilustração - Luciano Salles/Folhapress
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  • EUA e Irã assinam, na prática, um memorando de entendimento que estende por sessenta dias o cessar-fogo e reabre o estreito de Hormuz, responsável por cerca de quatorze por cento do petróleo mundial.
  • O acordo não é formal e não inclui Israel; Washington afirma que não é definitivo, podendo haver retomada de ataques.
  • Mesmo com alívio inicial, o risco de preços do petróleo dispararem era real, já que estoques globais caíram cerca de quatrocentos milhões de barris desde o início da crise e seguem em queda.
  • O tema gerou pânico entre mercados e especialistas, mas houve, ainda, consenso de que o bom senso não impede riscos reais.
  • A comparação com a Guerra das Malvinas é citada para lembrar que, historicamente, o bom senso pode falhar; hoje o risco de fechamento prolongado de Hormuz parece menor, mas minas no estreito precisam ser removidas.

Mercados globais pareciam apostar no bom senso antes do acordo entre EUA e Irã, assinado na quarta-feira. O entendimento, um memorando de entendimento, busca manter o cessar-fogo por 60 dias e reabrir o estreito de Hormuz, ponto estratégico para 14% do consumo mundial de petróleo.

Apesar do alívio, especialistas destacaram vulnerabilidades. O MoU não é um acordo formal e não inclui Israel, cuja posição é pedir suspensão de ataques no Líbano. O próprio ex-presidente Donald Trump indicou que se trata de um acordo incompleto, podendo ocorrer reações.

O pano de fundo é a tensão no petróleo. Estoques globais já caíam desde o início da crise, com quedas de centenas de milhões de barris. O acordo evita possibilidade de bloqueio de suprimentos que levaria a reajustes bruscos de preço.

Antes do anúncio, o mercado acompanhou sinalizações contraditórias. Houve dias de avanços e recuos nas negociações, com ataques pontuais entre as partes que dificultavam o progresso diplomático. A imprensa descreveu a forte volatilidade como um ciclo repetido de negociações.

Casos históricos lembrados por analistas ajudam a entender o cenário. Na Guerra das Malvinas, a tensão também se manteve alta por semanas, com ações militares e negociações que não cessavam. O desfecho teve custos elevados em vidas e em reputação econômica.

Especialistas avaliam que, no curto prazo, o risco de um fechamento prolongado de Hormuz parece contido. Projeções indicam que o petróleo pode demorar a retornar aos níveis pré-guerra, em função da necessidade de remoção de minas e de ajustes logísticos.

Ainda assim, o acordo reduz o temor de uma recessão global causada por uma escalada de preços. A percepção de que o diálogo pode impedir um choque maior domina o ambiente, mesmo diante de incertezas.

Segundo uma pesquisa com 2.000 executivos em 18 países, 80% enxergam a instabilidade geopolítica como impulsionadora da busca por energia renovável. A agenda de transição energética ganha impulso diante do risco de novos choques.

No conjunto, a crise recente pode ter um legado dúplice: o memorando encerra o risco imediato de uma escalada, mas revela que o bom senso nem sempre vence a pressão de pânico que ronda os mercados.

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