- Volodymyr Zelensky aceitou a oferta do presidente Jair Bolsonaro para ajudar a mediar um acordo de paz com a Rússia, em encontro na cúpula do G7, na França.
- Zelensky pediu aos aliados que aumentassem a pressão sobre Moscou para encerrar o conflito, que dura mais de quatro anos.
- A analista Fernanda Magnotta aponta que a sinalização marca uma mudança de paradigma, após credenciais do Brasil terem sido negadas em ocasiões anteriores.
- O Brasil é visto como potencial mediador por ter canais com Ocidente, Oriente e sul global, além de histórico em medidas que ajudam a reduzir danos da guerra.
- Desafios incluem a credibilidade junto à Ucrânia, ausência de instrumentos de pressão diretos sobre a Rússia e a concorrência de outros atores diplomáticos, como Turquia, China e União Europeia.
Volodymyr Zelenskiy aceitou a oferta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para ajudar a negociar um acordo de paz com a Rússia. O encontro ocorreu às margens da cúpula do G7, na França, quando Zelenskiy pediu aos aliados mais pressão sobre Moscou para encerrar o conflito.
Segundo a leitura de analistas, o momento representa uma mudança de paradigma em relação aos anos recentes. Lula já havia mostrado interesse na mediação, mas teve credenciais questionadas por EUA e Ucrânia no passado.
A analista Fernanda Magnotta explicou que a reconfiguração de atores, com mudanças na liderança dos EUA, abriu espaço para o Brasil atuar como mediador. Ela citou que Washington não conseguiu avançar de forma decisiva e que o Brasil surge como alternativa viável.
Durante o encontro bilateral, Kiev afirmou que Lula propôs manter contatos com membros do Conselho de Segurança da ONU. Zelenskiy também sugeriu um possível encontro ou chamada entre ele e Putin para facilitar as negociações.
Potencial diplomático brasileiro
Magnotta destaca que o Brasil tem capacidade de diálogo com Ocidente e Oriente, sem exercer pressão coercitiva. O país mantém canais com Rússia, China, além de aliados ocidentais, o que facilita a comunicação entre diferentes blocos.
Ela ressalta que o Brasil pode contribuir para uma relação mais estruturada com a China, que tem aproximado-se de Moscou por razões geopolíticas. O Brasil poderia ajudar a relativizar essa aproximação.
Além disso, o país possui histórico de ações que criam condições para cessar-fogo, como trocas de prisioneiros, segurança alimentar e proteção de infraestrutura civil, entre outros.
Desafios para a mediação brasileira
Entre os obstáculos está a chamada “sombra da crise de credibilidade” junto à Ucrânia. Kiev manteve desconfiança com o Brasil em diversos momentos, o que não se desfaz rapidamente.
Outro desafio é a carência de instrumentos de pressão direta sobre a Rússia. Embora haja acesso diplomático, o Brasil não detém ferramentas que levem Moscou a repensar sua rota.
Ainda, existem divergências profundas entre Rússia e Ucrânia sobre territórios, como Donbas e Crimeia, complicando qualquer acordo definitivo. Outros atores globais também atuam de forma concorrente.
Magnotta ressalta que decisões-chave dependem de Washington, Moscou e Pequim. O Brasil pode facilitar e sugerir, mas quem assina acordos e senta para negociar continua sendo os grandes protagonistas.
Quase todos os elementos apontam para uma janela de oportunidade. Resta acompanhar se o Brasil conseguirá manter sua atuação de forma responsável e independente, sem abandonar a neutralidade necessária.
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