- Onda de calor recorde atinge a Europa, com temperaturas acima de 35°C em várias cidades, sob um bloqueio atmosférico chamado Bloco Ômega.
- Estudo publicado na Nature Climate Change mostrou que sete em cada dez cidades europeias falhavam na preparação para temperaturas extremas; hoje a realidade mostra a falha na adaptação.
- Espanha, França, Países Baixos, Reino Unido e Alemanha registram mortes, interrupções de serviços, incêndios, quedas de energia e estragos na infraestrutura, incluindo trilhos deformados.
- Cientistas atribuem o episódio ao aquecimento global; o calor noturno fica cerca de cem vezes mais provável e, no conjunto, é considerado o mais severo já registrado para o mês de junho.
- Mesmo com avanços, a ausência de planos de adaptação para grupos vulneráveis permanece alta na Europa, e o financiamento global para adaptação não cobre a escala necessária.
O calor recorde que assola a Europa continua a causar mortes, interrupções e danos à infraestrutura. A onda atinge o leste do continente após avançar do oeste, com temperaturas acima de 35°C em várias regiões e noites ainda muito quentes.
Um estudo da Nature Climate Change, feito há pouco mais de um ano, mostrou que sete em cada dez cidades europeias não estavam preparadas para calor extremo. O recente episódio mostra o desalinhamento entre planos e ações.
A massa de ar quente, mantida por um bloqueio atmosférico chamado Bloco Ômega, prende o calor sobre a região. A condição impede a entrada de nuvens e reduz o resfriamento, mantendo o calor por dias seguidos.
A estimativa é de que mais de 190 milhões de europeus enfrentaram temperaturas acima de 35°C neste domingo, de acordo com análises iniciais. O calor tem se mostrado mais intenso durante as noites.
Da Ibéria ao Báltico, o impacto se amplia. Espanha registra óbitos entre 21 e 24 de junho, com o Instituto de Saúde Carlos III citando ao menos 212 mortes associadas ao calor.
Na França, o pico de calor já passou, mas as altas temperaturas provocaram centenas de óbitos adicionais entre 24 e 27 de junho, com maior concentração na região de Paris.
Além de mortes, houve episódios de afogamentos e acidentes em meio a tentativas de buscar alívio térmico. Um menino de três anos morreu após ficar preso no carro em Paris.
Incêndios florestais acompanharam o calor. Em Barcelona, 16 mil pessoas foram orientadas a permanecer em casa. Em outras regiões, tempestades ocorreram logo após a onda de calor.
Países baixos emitiram alerta vermelho inédito e cancelaram eventos como o Defqon.1. No Reino Unido, julho bateu recordes de junho, com temperaturas acima de 36°C em várias localidades.
Na Inglaterra, Londres viu impactos na vida pública: a London School of Economics ficou sem ar, afetando atividades, o que foi apresentado como imagem do período de calor extremo.
Infraestrutura de transporte também foi afetada. Trilhos deformados provocaram redução de velocidade de trens e interrupções em várias linhas. Especialistas apontam vulnerabilidade de redes sob altas temperaturas.
Na Alemanha, o calor atingiu 41,3°C em Saarbrücken, com danos na malha viária. Em diversas regiões, estradas foram interditadas ou limitadas para evitar acidentes graves.
Na Suíça, a usina nuclear de Beznau desligou dois reatores devido ao recálculo do resfriamento. A água do rio Aare chegou a 25°C, elevando o risco para o sistema de refrigeração.
As preocupações ambientais se estendem às montanhas, onde o derretimento acelerado de geleiras reduz reservas de neve. O calor também avança para o leste europeu, com a República Tcheca registrando 40,6°C no sábado.
Na Polônia, 40,2°C era a máxima histórica, ameaçada de novo, com cortes de energia e ações de orientação à população. A Eslováquia também se aproxima de recordes, com previsão de três dias acima de 40°C.
Dinamarca marcou 36,6°C, a mais alta desde 1874. Segundo a Severe Weather Europe, o núcleo quente deve alcançar os países bálticos e, no início da próxima semana, a península balcânica, com temperaturas próximas a 40°C.
A leitura da ciência e a adaptação
Estudo de atribuição rápida classifica o episódio como o mais severo já registrado na Europa para junho, atribuindo o calor à queima de combustíveis fósseis. Dados analisados em 854 cidades de 30 países mostram 45% acima do teto previsto para o mês.
A Organização Meteorológica Mundial ressalta que a Europa esquenta em ritmo acima da média global. Ainda assim, quase metade das cidades analisadas não tinha planos formais de adaptação.
Entre os planos existentes, muitos se limitaram ao diagnóstico, sem metas concretas. Medidas para proteção de grupos vulneráveis aparecem em apenas 4% dos planos, com 1% centralizando a atuação nesses grupos.
Especialistas apontam o impacto de decisões políticas recentes, com menor atenção a agendas climáticas e maior ênfase em competitividade econômica. Contudo, cresce a cobrança por adaptação, não apenas mitigação.
Globalmente, o Relatório Come Hell and High Water aponta necessidade anual entre 187 e 359 bilhões de dólares para adaptação. Financiamento internacional subiu, mas cobre apenas uma fração do necessário.
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