- Malawi depende de fertilizantes químicos importados, respondendo por mais de ninety por cento do consumo anual (mais de 400 mil toneladas), com o país sem produção própria de fertilizantes.
- Disrupções no transporte pelo estreito de Hormuz podem tornar o fornecimento imprevisível, elevando custos, prazos de entrega e a volatilidade dos preços.
- Em dezembro de 2025, um saco de 50 kg de ureia custava $96; hoje o preço está em $103, com expectativa de alta na próxima temporada de plantio.
- A elevação de preços de fertilizantes afeta cerca de quatro milhões de pequenos produtores, aumentando o risco de menor colheita de milho e maior custo de alimentos.
- Agroecologia é apontada como oportunidade para reduzir a dependência de fertilizantes sintéticos, com uso de manejo do solo e culturas alternativas como mandioca, batata-doce, milho miúdo (millet) e sorgo; agricultores como James Singano já recorrem a esterco para fertilizar o solo, ainda que com menor produtividade que o fertilizante químico.
As primeiras horas de junho trouxeram um alerta para os agricultores de Malawi. James Singano já trabalha a terra, ainda que a temporada agrícola esteja prevista para começar daqui a cinco meses. Ele intercala milho, cultivo básico para a alimentação, com ervilha-de-pombo, buscando manter a produção diante de custos crescentes.
Singano é um dos mais de 4 milhões de camponeses de pequenas propriedades no país. A produção de milho representa cerca de 80% da safra anual, mas a renda familiar de seis pessoas fica aquém do necessário quando fertilizantes caros elevam o custo de cada hectare.
A região onde ele vive fica nos arredores de Blantyre, no sul de Malawi. A realidade de poucos recursos, solos degradados e dependência de insumos importados molda decisões sobre manejo do solo e adubação, com impactos diretos na segurança alimentar.
Desafios de fertilizantes e solos
Um relatório do MwAPATA Institute, de 2022, aponta perda de produtividade em mais de 40% dos solos do país por manejo inadequado. A degradação e o uso excessivo de fertilizantes sintéticos agravam a acidificação do solo.
Especialistas destacam que fertilizantes são importantes, mas seu uso sem matéria orgânica suficiente pode piorar a saúde do solo. A FAO alerta para riscos de contaminação e desequilíbrios quando a prática não é acompanhada de manejo adequado.
Dependência de importações
Malawi não produz fertilizante e importa mais de 400 mil toneladas por ano, em grande parte da região do Golfo. Em 2023, quase 90% do nitrogênio e fosfato vieram de países do Golfo, com o risco de interrupções em vias como o Estreito de Hormuz.
A volatilidade do abastecimento eleva custos, aumenta prazos de entrega e pode derrubar a disponibilidade no mercado local. A Fertilizer Association of Malawi estima que o impacto seja indireto, refletindo-se no preço e na previsibilidade.
Reação dos agricultores e políticas
A convivência com o preço elevado estimula a adoção de práticas agroecológicas. Pelum Malawi explica que a queda do uso de fertilizantes sintéticos reduz o custo de produção e incentiva a recuperação de solos por meio de manejo de fertilidade do solo.
Nozgenji Wendy Bilima, coordenadora da Pelum Malawi, afirma que a prática agroecológica inclui rotação de culturas, agroflorestas e adubação orgânica, com ganhos para a resiliência das lavouras. Ela aponta que a ideia de que todos os solos precisam de fertilizante é simplista.
Perspectivas locais
Singano já utiliza esterco de galinha comprado em granjas locais, operando dentro de um orçamento restrito. Ele gasta cerca de 29 dólares por temporada com adubação orgânica, reconhecendo que o rendimento com fertilizantes sintéticos ainda seria superior, mas o custo inviabiliza o uso constante.
Especialistas indicam que menor dependência de insumos sintéticos pode estimular a diversificação de culturas, com culturas como mandioca, inhame e milheto, que se adaptam melhor a solos menos férteis. A expectativa é de queda na pressão por insumos caros.
Contexto de importação e preços
A construção de uma estratégia de longo prazo envolve equilíbrio entre produção local, importações e políticas públicas. Estimativas indicam que a inflação de fertilizantes pode afetar o preço de compra na safra 2025/2026, aumentando o custo para produtores.
Observa-se ainda que o milho, ainda dependente de adubos químicos, pode ver a produção afetada pela combinação de custos elevados e disponibilidade instável. A economia local avança com iniciativas que promovem manejo de solo e agroecologia.
Caminhos para a agricultura sustentável
Para reduzir a dependência de insumos importados, governos, ONGs e associações de agricultores promovem práticas agroecológicas. A adoção ainda é desigual, mas cresce conforme o custo de produção aumenta.
Pelum Malawi cita passos como manejo de solo, agrofloresta e comercialização de adubos orgânicos entre comunidades, como forma de elevar a produtividade sem ampliar a dependência de fertilizantes sintéticos.
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