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A extrema direita europeia: retorno dos extremos ao velho continente

Crescimento de partidos ultraconservadores desafia o equilíbrio democrático europeu e expõe contradições históricas

Imagem: Portal Tela
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  • A convivência entre diferentes perspectivas políticas é essencial para o funcionamento da democracia.
  • A polarização saudável estimula o debate e a pluralidade de ideias, mas a radicalização leva ao confronto.
  • Na Alemanha, o partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha (AfD) cresce e se torna a segunda força no Bundestag, com um discurso anti-imigração.
  • Na França, o Reunião Nacional (RN), sob a liderança de Marine Le Pen, amplia seu apoio entre mulheres e jovens com um discurso moderado, mas firme em pautas de segurança.
  • A extrema direita também avança em outros países europeus, como Itália, Áustria, Países Baixos e Suécia, refletindo insegurança econômica e medo cultural.

O bom funcionamento de uma democracia depende da convivência entre diferentes perspectivas políticas, como a direita e a esquerda. Quando saudável, essa polarização estimula o debate, a pluralidade de ideias e a construção de consensos em torno de políticas públicas. Mas, quando a disputa se radicaliza, o diálogo e a tolerância cedem lugar ao confronto e à exclusão.

Se no Brasil já estamos familiarizados com a extrema direita e, nos Estados Unidos, ela ecoa em slogans como “Make America Great Again”, na Europa o fenômeno assume contornos curiosos. Dada a história e a cultura do continente, marcado por guerras, reconstruções e pela defesa dos direitos humanos, sua ascensão destoa do que muitos imaginariam para povos que já viveram de perto os custos da intolerância e do autoritarismo. Ainda assim, esse movimento cresce e redefine o cenário político europeu.

O caso alemão: o paradoxo do AfD

Na Alemanha, o partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha (AfD) vive um momento de ascensão sem precedentes desde a Segunda Guerra Mundial. Marcado por um discurso anti-imigração e eurocético, obteve crescimento recorde nas últimas eleições e consolidou-se como a segunda força no Bundestag.

O fenômeno é ainda mais curioso ao se observar a trajetória de sua líder, Alice Weidel. Lésbica assumida, ateia, com dois filhos e parceira nascida no Sri Lanka, Weidel apresenta um perfil que destoa do conservadorismo tradicional defendido pelo partido. Economista formada na China, ex-funcionária de instituições financeiras como Goldman Sachs, ela se tornou um rosto público capaz de suavizar a imagem radical da legenda, enquanto mantém posições duras sobre imigração e políticas sociais.

Outro aspecto marcante é a geografia do voto. O AfD tem maior força nos estados da antiga Alemanha Oriental, regiões mais homogêneas e economicamente desfavorecidas, que enfrentaram mudanças bruscas após a reunificação. Nessas áreas, ressentimento histórico e baixo contato com imigrantes criaram terreno fértil para a retórica nacionalista.

França: o “feminismo” da direita radical

Na França, o partido Reunião Nacional (RN), liderado por Marine Le Pen até 2021, expandiu sua base entre mulheres e jovens. Apostando em um discurso moderado no tom, mas firme nas pautas anti-imigração e de segurança, Le Pen se distanciou das declarações sexistas e polêmicas de seu pai, fundador do partido, e buscou se apresentar como uma “mulher comum” que defende famílias e o poder aquisitivo.

Pesquisas mostram que o apoio feminino ao RN cresceu cerca de dez pontos percentuais nos últimos anos, aproximando-se do índice masculino. Entre os jovens, a figura de Jordan Bardella, discípulo de Le Pen, faz sucesso. Ele a substituiu como líder do Reunião Nacional em novembro de 2022, ao vencer uma votação interna com 85% dos votos com apenas 27 anos.

Itália: tradição e conservadorismo no poder

Na Itália, Giorgia Meloni lidera o governo com o partido Irmãos de Itália, herdeiro político de movimentos com raízes no fascismo. Seu lema, “Deus, Família e Pátria”, resume a agenda conservadora que se posiciona contra imigração, direitos LGBTQIA+, aborto e eutanásia. Apesar da proximidade ideológica com outros líderes radicais, Meloni se destaca por adotar postura firme contra a Rússia na guerra da Ucrânia, o que a diferencia de partidos como o AfD.

Outros polos de crescimento

O avanço da extrema direita não se limita aos grandes centros políticos do continente. Na Áustria, o Partido da Liberdade (FPÖ) mantém alta popularidade com discurso anti-imigração e eurocético. Nos Países Baixos, Geert Wilders lidera o Partido para a Liberdade (PVV), famoso por posições islamofóbicas e por propostas de proibir mesquitas e o Alcorão. Já na Suécia, os Democratas da Suécia combinam retórica anti-imigração com apoio incomum à proteção ambiental, adaptando-se ao cenário local.

Um continente em disputa

A ascensão desses partidos reflete uma combinação de fatores: insegurança econômica, medo cultural diante das migrações, ressentimentos históricos e estratégias modernas de comunicação. Em um continente que construiu sua identidade recente sobre a democracia e a integração, o fortalecimento da extrema direita reabre feridas e impõe um desafio central: como equilibrar o debate político sem que ele escorregue novamente para os extremos que marcaram os capítulos mais sombrios de sua história.

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