- No último domingo, a Bolívia teve dois candidatos de direita disputando o segundo turno das eleições presidenciais, após duas décadas de domínio da esquerda pelo Movimento ao Socialismo (MAS).
- Os resultados oficiais ainda não foram divulgados, mas apurações preliminares indicam a queda da esquerda, com o senador Rodrigo Paz, do Partido Democrata Cristão, liderando com 32,18% dos votos, seguido pelo ex-presidente Jorge “Tuto” Quiroga, da coalizão Alianza, com 26,94%.
- A alta votação de Paz surpreendeu, pois ele aparecia com apenas 7% nas pesquisas antes da eleição. Sua falta de visibilidade nos debates pode ter contribuído para sua ascensão.
- A esquerda enfrenta uma crise, dividida entre o ex-presidente Evo Morales e seu adversário Luis Arce, que não se candidatou e indicou Eduardo del Castillo, que obteve apenas 3,2% dos votos.
- A fragmentação da esquerda e a insatisfação com o governo de Arce, que lidou com uma inflação anual de 24,8%, foram fatores que favoreceram a vitória da direita.
No último domingo (17), a Bolívia se viu pela primeira vez na história com dois candidatos de direita disputando o segundo turno das eleições presidenciais, após duas décadas de domínio da esquerda pelo Movimento ao Socialismo (MAS).
Os resultados oficiais ainda não foram divulgados e podem levar até uma semana para saírem, mas as apurações preliminares já contabilizaram 95% das urnas e indicam a queda da esquerda. O senador Rodrigo Paz, do Partido Democrata Cristão, lidera com 32,18% dos votos, seguido pelo ex-presidente conservador Jorge “Tuto” Quiroga, da coalizão Alianza, que soma 26,94%.
O resultado foi uma surpresa para muitos, já que Paz, hoje no segundo turno com a maioria dos votos, aparecia nas pesquisas com aproximadamente 7% das intenções, ficando entre os menos cotados.
As explicações para a alta votação de Paz apontam justamente para sua falta de visibilidade. O foco do público e dos debates estava em Quiroga e em seu adversário Doria Medina, além da reação da esquerda a tudo isso, o que manteve Paz fora dos holofotes e, consequentemente, distante das fake news. Isso junto ao elevado número de eleitores indecisos, cerca de 10%, contribuiu para que ele assumisse a liderança.
A esquerda por sua vez enfrenta uma crise no país, rachada e dividida entre o ex-presidente Evo Morales e seu adversário Luis Arce, que estava no comando do país. Arce optou por não se candidatar pelo partido e indicou Eduardo del Castillo como representante, que recebeu apenas 3,2% dos votos.
Do outro lado, Evo Morales não pôde se candidatar por não ter regularizado a tempo seus partidos, Evo Pueblo e Partido de Ação Nacional Boliviano (Pan-Bol), mesmo após recorrer ao Tribunal Supremo Eleitoral. Como alternativa, orientou seus apoiadores a votar nulo como forma de protesto, o que resultou em 19,4% de votos nulos.
Os 20 anos de esquerda na Bolívia
A dominação da esquerda na Bolívia começou em 2005, com a candidatura de Evo Morales, o primeiro líder de origem indígena a assumir a presidência. Ele conquistou 53,74% dos votos e se tornou presidente pelo MAS, iniciando seu legado na política e mudando a trajetória do país por duas décadas.
Sua visão de governo incluía propostas com discursos anti-imperialistas, nacionalistas, antineoliberal e socialista. Entre elas, destacava-se o compromisso de acabar com o modelo colonial e o neoliberalismo. Durante seu mandato, conseguiu reduzir a pobreza de 59% para 35% em uma década, além de controlar a inflação.
A promulgação de uma nova Constituição em 2009 permitiu que Evo Morales se reelegesse para um novo mandato de cinco anos. Por meio da Ley de Aplicación Normativa, o primeiro governo de Evo foi considerado apenas a partir de 2009, possibilitando uma nova reeleição em 2014.
Em 2016, uma votação foi realizada para decidir a possibilidade de reeleição de Evo Morales, proibida pela Constituição. Ele perdeu, com 51,3% dos votos contrários (“Não”) e cerca de 48,7% a favor (“Sim”).
Mesmo assim, em 2017, o Tribunal Constitucional decidiu que a proibição violava direitos humanos, permitindo que Evo Morales se reelegesse em 2019. No entanto, ele acabou sofrendo o que seus apoiadores chamam de golpe militar, e na sequência, a senadora Jeanine Añez assumiu o cargo por pouco mais de um ano antes de ser presa.
Após a queda de Evo Morales, ele apoiou Luis Arce como seu sucessor. Arce, que foi ministro da Economia durante os governos de Evo e peça-chave na estruturação econômica do país, tornou-se o último presidente da esquerda antes da atual derrota do movimento.
No entanto, devido a crises durante o mandato de Arce, como o esgotamento das reservas em dólares devido à política de subsídios aos combustíveis, sua imagem ficou distante da população, levando-o a não disputar a reeleição.
Por que a esquerda caiu?
Alguns motivos explicam a perda de espaço da esquerda na Bolívia. O principal foi a fragmentação do grupo do movimento, pois após anos no poder, Evo Morales e Luis Arce se desentenderam sobre a liderança do MAS e suas projeções políticas futuras.
O Tribunal Constitucional Plurinacional (TCP) acabou reconhecendo Grover García como presidente do partido e retirando Evo do MAS. Essas disputas levaram à fragmentação da esquerda, com Evo Morales chegando a prejudicar Luis Arce ao apoiar o fechamento de dezenas de rodovias no país.
A insatisfação com o atual governo de Luis Arce também contribuiu para a vitória da direita. A população enfrentava uma inflação anual de 24,8% em julho, e a crise cambial agravou ainda mais o descontentamento popular.
A candidatura de Rodrigo Paz também desempenhou um papel importante neste cenário. Mesmo sendo pouco relevante nas pesquisas, seus discursos fortaleceram a oposição à esquerda, ao defender um “capitalismo para todos” que conquistou o público.
Como isso afeta o Brasil?
Diretamente, o Brasil pode ser afetado de algumas maneiras, mas o buraco é bem mais embaixo. O principal impacto da mudança está na relação da Bolívia com Lula, já que o novo governo de direita pode interferir na comunicação entre os países e influenciar as importações de gás boliviano, área fortemente apoiada pelo presidente.
Mas o principal impacto virá nas próximas eleições do Brasil, já que a ascensão da direita e a queda da esquerda na Bolívia podem repercutir por aqui. A esquerda brasileira está cada vez mais fragmentada, enquanto centro e direita se fortalecem e se unem para enfrentar esse adversário em comum.
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