- A Meta planejou criptografar o Messenger ligado ao Facebook e ao Instagram, mesmo com alertas internos de que isso dificultaria sinalizar exploração infantil às autoridades.
- O caso do Novo México acusa a empresa de apresentar um plano de segurança enganoso; o processo, iniciado neste mês, é movido pelo procurador-geral Raul Torrez.
- Documentos internos mostram que executivos de segurança temiam o risco de predadores conectarem menores de idade a vítimas, com Monika Bickert chamando o movimento de “irresponsável”.
- Em 2019, um documento estimou queda de 65% nas denúncias de nudez infantil e exploração sexual ao NCMEC caso o Messenger fosse criptografado; atualizações indicaram incapacidade de fornecer dados proativamente em centenas de casos de exploração.
- A Meta afirma ter criado recursos adicionais de segurança antes do lançamento da criptografia em 2023, incluindo contas especiais para menores; usuários ainda podem denunciar mensagens para análise e possível encaminhamento às autoridades.
O pedido de criptografia de ponta a ponta no Messenger, anunciado pela Meta em 2019, volta a ganhar destaques por meio de documentos internos apresentados em processo judicial no Novo México. A acusação aponta que executivos da empresa decidiram seguir com o plano mesmo cientes de que ele reduziria a capacidade de sinalizar casos de exploração infantil às autoridades policiais.
De acordo com o material obtido, Monika Bickert, então chefe de política de conteúdo, chegou a classificar a ideia como extremamente arriscada para a segurança das crianças, enquanto Mark Zuckerberg preparava o anúncio público. Os documentos mostram que, internamente, a equipe de segurança e política questionou o projeto e apontou riscos reputacionais e operacionais.
O processo movido pelo procurador-geral do Novo México, Raul Torrez, entrou na pauta judicial na sexta-feira (20). A ação sustenta que a Meta permitiu que predadores ampliassem o alcance de suas atividades com menores de idade, conectando-os a vítimas. O caso é considerado o primeiro a chegar a júri envolvendo a empresa nesse tema.
O inquérito judicial ressalta que, apesar de Zuckerberg defender que a empresa mitigava riscos, executivos seniores de segurança e política alertaram para falhas. Em e-mails, Bickert afirmava que a Meta proferia declarações “grosseiramente erradas” sobre a capacidade de manter operações de segurança sob criptografia.
Segundo as mensagens, a executiva também afirmou não estar interessada em apoiar a promoção do plano, destacando que a criptografia dificultaria a detecção de planejamento de ataques e de exploração infantil, mesmo com mecanismos de denúncia disponíveis. Documentos de 2019 indicaram que a adoção da criptografia poderia reduzir denúncias de imagens de nudez ou exploração de crianças ao NCMEC em até 65%.
Uma atualização do material indicou ainda falhas na capacidade de fornecer dados proativamente às autoridades em centenas de casos de exploração infantil, sextorção, terrorismo e ameaças de tiroteios em escolas. O conjunto de dados reforça o debate sobre o equilíbrio entre privacidade e segurança infantil.
Para contextualizar, a criptografia de ponta a ponta faz com que apenas o remetente e o destinatário consigam decodificar a mensagem, prática comum em apps como iMessage, WhatsApp e, no caso da Meta, também em seus serviços. Defensores da proteção infantil defendem que esse recurso impede a atuação de terceiros para identificar abusos em tempo real.
Em resposta, a Meta afirmou que, antes do lançamento de recursos criptografados no Facebook e no Instagram em 2023, houve esforços para ampliar medidas de segurança. A empresa barrou que a criptografia inviabilizaria a atuação das autoridades e ressaltou que os usuários ainda podem denunciar conteúdos suspeitos para análise.
Entre as medidas adicionais citadas pela rede social estavam contas especiais para usuários menores de idade, visando evitar contatos indesejados por adultos. Documentos de 2019 apontavam preocupações de que o Messenger poderia facilitar contatos entre predadores e crianças, comparando com o modelo do WhatsApp, que não se conecta diretamente a plataformas sociais.
Contexto e desdobramentos
A ação do Novo México ocorre em um momento de ações legais e regulatórias globais contra a Meta, com foco no bem-estar de jovens usuários. Além do processo estadual, uma coalizão de mais de 40 procuradores-gerais busca reparação por danos à saúde mental de jovens, levantando questões sobre práticas da empresa.
Além disso, distritos escolares participam de ações judiciais contra a empresa. O caso do Novo México é o que chegou mais próximo de um júri até o momento, conforme dados apresentados pela defesa e pela procuradoria.
Ponto de vista da empresa
A Meta informou que desenvolveu recursos de segurança voltados a detectar e prevenir abusos em ambientes criptografados, citando a criação de ferramentas para identificar conteúdo inadequado sem romper a privacidade das mensagens. A companhia explicou que o objetivo foi equilibrar privacidade com proteção de menores, mantendo a possibilidade de encaminhar denúncias às autoridades.
Entre na conversa da comunidade