- Anton Von Salis, presidente da Swisscam, afirmou que a ditadura brasileira trazia estabilidade e mão de obra barata, favorecendo o capital suíço em entrevista à RTS em 1970.
- Levantamento de Gabriella Lima mostrou que, em 1971, trabalhadores sem qualificação recebiam no Brasil cerca de um quinto do salário de um operário suíço na mesma função; profissionais recebiam pouco mais da metade.
- Entre 1964 e o fim dos anos setenta, a Suíça foi um dos maiores investidos no Brasil, com investimento estrangeiro direto de 1,1 bilhão de francos suíços em 1973 e 2,3 bilhões em 1977.
- O sequestro do embaixador suíço Giovanni Bucher, em 1970, por vingança de grupos de oposição, reforçou a tensão entre Brasil e Suíça durante o período; outros diplomatas também foram alvo de ações semelhantes na região.
- O governo suíço respondeu, por escrito, que não pode detalhar análises históricas, mas abriu espaço para estudos independentes; a Swisscam não disponibilizou acesso aos arquivos.
De camisa polo e cercado por folhagens, Anton Von Salis, então presidente da Swisscam, explicou, em entrevista à RTS, por que trabalhadores no Brasil ganhavam menos que na Europa. Era dezembro de 1970, em meio à repressão da ditadura militar brasileira.
O relato de Von Salis sugeria que a estabilidade imposta pela ditadura favorecia o capital estrangeiro. A visão, que associava baixos salários a ganho de lucro, foi publicada à época pela emissora suíça. O enfoque ficou marcado como apoio ao regime.
Estudo conduzido por Gabriella Lima, da Universidade de Lausanne, aponta que as 14 maiores multinacionais suíças lucraram com o cenário brasileiro. Em 1971, salários baixos no Brasil contrastavam com a remuneração na Suíça.
Entre trabalhadores sem qualificação, o salário brasileiro ficava a cerca de 20% do suíço na mesma função. Mesmo para funções profissionais, a diferença superava metade do salário suíço, beneficiando as empresas criadoras de lucro.
Gabriella calcula que, em 1971, as 14 maiores suíças no Brasil teriam faturado cerca de 80 milhões de francos com mão de obra operária local. O estudo integra o livro Don’t Miss The Bus, ainda não traduzido para o português.
Para o economista Marco Antônio Rocha, da Unicamp, a valorização do salário mínimo foi um dos motores do golpe de 1964. A política de reajuste foi alterada, acelerando a defasagem do poder de compra do trabalhador.
Entre 1964 e o fim dos anos 1970, a Suíça figurou entre os quatro maiores investidores no Brasil. O investimento suíço per capita ficou acima do de outros parceiros, com patamar próximo de 1,1 bilhão de francos em 1973 e de 2,3 bilhões em 1977.
A entrevista da Swisscam ocorreu em meio ao sequestro do embaixador suíço no Brasil,Giovanni Enrico Bucher, em dezembro de 1970. A libertação ocorreu 40 dias depois, em troca de presos políticos exilados.
A atuação suíça também se deu em paralelo a outros seqüestros de diplomatas na região, como os de EUA, Alemanha e Japão, entre 1969 e 1971, em ações associadas a tensões políticas da Guerra Fria.
O governo suíço informou que uma análise histórica detalhada é necessária para avaliação do tema, ressaltando que apoia estudos independentes. A Swisscam ainda não autorizou o acesso aos seus arquivos, segundo a assessoria.
A reportagem insere-se no projeto Perdas e Danos, que investiga a ditadura militar brasileira. O roteiro examina a relação entre o Brasil e a Suíça e a atuação do capital estrangeiro no período.
Entre na conversa da comunidade