- O documentário Cheiro de Diesel estreou na quinta-feira e analisa as Garantias da Lei e da Ordem (GLO) em megaeventos esportivos no Brasil, com foco nas favelas do Rio entre 2014 e 2018.
- A Operação São Francisco, autorizada dois meses antes da Copa do Mundo, levou 2,5 mil militares a 15 favelas do Complexo da Maré, durou oficialmente 14 meses e custou cerca de R$ 350 milhões.
- Moradores relatam violações, como torturas, coerções, assassinatos e invasão de residências; o documentário dá voz a quem vivenciou os abusos.
- O filme aponta que as GLOs são decretadas pelo presidente e vistas como última opção para crises de segurança, especialmente em momentos de grandes eventos.
- Dirigido por Natasha Neri e Gizele Martins, o documentário usa relatos de moradores para questionar a constitucionalidade da Justiça Militar em casos envolvendo civis.
O documentário Cheiro de Diesel estreou na quinta-feira (2) e traz relatos sobre violações de direitos humanos associadas a operações de Garantia da Lei e da Ordem GLO no Brasil entre 2014 e 2018. O foco são as intervenções em favelas do Rio de Janeiro durante megaeventos esportivos, com ênfase no que testemunhas viveram. A obra procura esclarecer os motivos políticos e legais que embasaram tais ações.
Dirigido pelas jornalistas Natasha Neri e Gizele Martins, o filme parte do relato de moradores da Maré para mapear os abusos. A produção examina a implementação da Operação São Francisco, que levou 2,5 mil militares para 15 favelas do Complexo da Maré, na zona norte, com duração oficial de 14 meses e custo estimado de 350 milhões de reais.
A operação ocorreu dois meses antes da Copa do Mundo de 2014, sob pretexto de segurança pública, e teve a Maré escolhida pela posição estratégica do complexo. Em meio à ocupação, moradores relataram detenção de crianças, invasões de casas e de organizações sociais, além de denúncias de violência.
O documentário contextualiza a atuação das Forças Armadas em ações de GLO, previstas na Constituição como último recurso frente a crises de segurança. O tema é abordado com base em investigações, relatos de vítimas e arquivos de comunicadores comunitários da Maré.
Entre os casos documentados estão a operação de 2015 que deixou Vitor Santiago gravemente ferido por tiros de fuzil, resultando em amputação de uma perna e paraplegia; o atestado de absolvição do cabo apontado como autor pelo tribunal militar. Em 2017, a Chacina do Salgueiro deixou oito jovens mortos durante ações no Rio.
O filme também aborda a tortura de 11 jovens na megaoperação no complexo da Penha em 2018, conhecida como Sala Vermelha. Os relatos destacam a recorrente atribuição de investigações a instâncias militares e a resistência de órgãos de controle.
Cheiro de Diesel estreou no Rio de Janeiro, São Paulo, Fortaleza e Caxias do Sul, com debates após as sessões. Brasília receberá a estreia na quinta-feira (9), também com debate. A produção teve início em 2014, reunindo inquéritos, relatos de vítimas e acervo de comunicadores da Maré.
A obra sugere a inconstitucionalidade de julgar crimes cometidos por militares por meio da Justiça Militar, apontando indícios de impunidade em investigações que envolvem agentes das Forças Armadas. O documentário faz parte de uma linha de controle público sobre o uso de forças armadas em operações de segurança.
A divulgação dos relatos busca oferecer uma visão crítica sobre o uso de GLO para eventos de grande porte e as consequências para moradores de favelas, sem posicionamento editorial na conclusão. O filme continua em circuito de exibição com debates programados.
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