- Brasil mostrou que liderança de empresas e mobilização comunitária ajudaram a combater desinformação sobre vacinas e a viabilizar a distribuição durante a pandemia.
- Durante a pandemia, o governo de Jair Bolsonaro atacou o programa de vacinação, demitiu ministros e cortou recursos, dificultando as ações de saúde pública.
- Em contrapartida, o setor privado financiou parte da vacinação: BioManguinhos e Butantan receberam doações; Fundação Lemann financiou ensaios da AstraZeneca; Ambev contribuiu com logística; o grupo Mulheres do Brasil criou campanhas e apoio técnico.
- A atuação de base, com campanhas locais, cartazes, aplicativos e redes comunitárias, foi decisiva para enfrentar a desinformação; em 2021 havia mais de 1.300 iniciativas locais identificadas.
- Em agosto de 2022, 81% da população adulta estava totalmente vacinada contra a Covid-19; o Brasil expandiu a capacidade de vigilância sanitária e de produção de vacinas, fortalecendo o SUS a longo prazo.
O que aconteceu: uma pesquisadora norte-americana em ciência política analisou a mobilização brasileira durante a pandemia para defender a vacinação. O foco foi a atuação de líderes empresariais, grupos comunitários e profissionais de saúde diante de ataques e de desinformação.
Quem está envolvido: instituições públicas de saúde do Brasil, empresas privadas mobilizadas por meio de doações, a Fundação Lemann, a Ambev e o grupo Mulher do Brasil. Também aparecem comunidades locais, universidades e organizações comunitárias como agentes sociais.
Quando aconteceu: ao longo da pandemia de COVID-19, com especial destaque a partir de 2020 e desdobramentos até 2022, quando já havia resultados expressivos de cobertura vacinal. A análise atualiza a partir de esse período.
Onde ocorreu: Brasil, com referências a experiências locais em diversas regiões, e comparação com outros países. O estudo cita iniciativas nacionais e ações de comunidades, laboratórios públicos e entidades privadas.
Por quê: para entender como a união entre autonomia institucional, apoio privado e engajamento comunitário ajudou o sistema de saúde a preservar a vacinação diante de ataques políticos e desinformação.
Um sistema de saúde sob ataque
O sistema de saúde brasileiro, criado para oferecer assistência universal, enfrentou críticas e pressões durante a pandemia. Apesar de falhas, o modelo de atenção preventiva é considerado referência em várias partes do mundo.
Antes de 2019, a confiança na vacinação era alta, com uma “cultura da vacina” consolidada entre profissionais. O mascote Zé Gotinha simbolizava a aceitação social das campanhas.
Em 2020, durante a gestão de governo sob Jair Bolsonaro, houve ataques ao programa de vacinação, inclusive tentativas de enfraquecer a agenda infantil. Ainda assim, a mobilização de profissionais, governadores e a sociedade manteve o esforço.
Governadores oposicionistas ofereceram diretrizes próprias e adquiriram vacinas de forma independente. Mesmo com esse suporte, a escassez de recursos nacionais limitou a efetivação das ações.
O programa sobreviveu graças à atuação de aliados fora do governo, com doações privadas e ações de base que complementaram o orçamento público.
Lideranças que atuaram rapidamente
Empresas preencheram lacunas orçamentárias, com doações que chegaram a centenas de milhões de reais para laboratórios públicos. Organizações como a Fundação Lemann financiaram ensaios clínicos, e a Ambev colaborou com logística.
O grupo Mulheres do Brasil criou a campanha Unidas pela Vacina, fornecendo insumos básicos e, em alguns casos, recursos para transporte de vacinas a comunidades isoladas. Médicos ligados à iniciativa destacaram que os recursos públicos não foram utilizados para essas demandas.
Grupo de base local reforçou as ações. Campanhas informativas, cartazes e conteúdos criados por comunidades contribuíram para o combate à desinformação e à resistência ideológica.
Em 2021, mapas de iniciativas locais identificaram mais de 1.300 ações municipais e outras 800 ligadas a universidades, demonstrando amplo engajamento cívico.
Avanços perceptíveis
Em agosto de 2022, 81% dos adultos estavam totalmente vacinados contra a COVID-19 no Brasil, igualando virtudes de países como Nova Zelândia e Holanda. Mesmo assim, houve recuos vacinais em determinadas doenças, em escala mundial.
O fortalecimento do sistema de saúde de longo prazo ocorreu com construção de laboratórios, novas unidades de produção e vigilância sanitária pública fortalecida por financiamento privado. Em 2024, gastos com saúde apresentaram aumento expressivo frente ao ano anterior.
Visão de longo prazo para a saúde pública
A pesquisadora destaca que o Brasil já vinha consolidando confiança no SUS há décadas, após lutas para universalização do atendimento. As ações de comunicação pública fortalecem a percepção de que o acesso à saúde é um direito reconhecido.
Profissionais de saúde atuam junto às comunidades, com ações educativas e vacinação em praças públicas e escolas. Esses vínculos ajudam a defender as instituições em momentos de turbulência política, segundo a pesquisadora.
A conclusão aponta que relações duradouras entre comunidades e o sistema de saúde são fundamentais para a resiliência institucional. A experiência brasileira pode servir de referência para outros países enfrentarem crises sanitárias.
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