- O deputado federal Otoni de Paula (PSD-RJ), bolsonarista arrependido, afirma que a família Bolsonaro tem responsabilidade pela crise no Rio de Janeiro e não deveria se meter mais nas eleições locais.
- Ele acusa Flávio Bolsonaro de integrar uma “quadrilha” e aponta que Jair Bolsonaro é responsável pela degradação do estado, citando apoios a Wilson Witzel e Cláudio Castro.
- Otoni diz apoiar Eduardo Paes para governador do Rio, por considerar Paes um gestor e por acreditar que é necessário um choque de gestão; também apoia Ronaldo Caiado para presidente, com ressalvas sobre anistia ampla a condenados.
- A entrevista aborda segurança pública e acusações de conselheiro entre Executivo e crime organizado, defendendo intervenção federal no Rio como medida de gravidade política.
- O deputado comenta o papel dos pastores no combate à violência contra a mulher, critica projetos que criminalizam a misoginia sem debate adequado e defende o uso da Bíblia como ferramenta de promoção da igualdade entre homens e mulheres.
O deputado federal Otoni de Paula, identificado como bolsonarista arrependido, critica o que chama de envolvimento da família Bolsonaro na política fluminense. Ele sustenta que o ex-presidente Jair Bolsonaro foi fiador político de dois governadores apontados como problemáticos para o Rio: Wilson Witzel e Cláudio Castro.
De Paula afirmou, em entrevista à BBC News Brasil, que a operação policial de outubro contra comunidades do Rio foi usada como teatro para encobrir ligações entre facções criminosas e autoridades locais. Segundo ele, isso contribuiu para a crise no estado, que ele descreve como narcoestado. Alega ainda que Flávio Bolsonaro faz parte da suposta quadrilha.
O deputado diz ter votado em Witzel e em Castro a pedido dos próprios postulantes, e afirma que Bolsonaro não reconheceu erros. Também afirma que seria desejável que a família Bolsonaro não participasse mais das eleições no Rio, pois, na visão dele, haveria apenas pessoas ligadas a crimes.
Otoni de Paula diz apoiar Eduardo Paes ao governo do Rio, mesmo mantendo uma relação anterior de apoio a Paes na prefeitura. Ele admite alinhamento estratégico na atual conjuntura, diante de divergências com outros nomes da direita. Na corrida presidencial, o parlamentar diz apoiar Ronaldo Caiado, ainda que critique propostas de anistia a condenados por golpes de Estado.
Em resposta às acusações, representantes de Flávio Bolsonaro e de Cláudio Castro não retornaram a contatos da reportagem. Otoni de Paula também afirmou que Cláudio Castro teria sido beneficiado por uma rede de apoio que, segundo ele, envolve o vice-líder Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Alerj, ligado a uma suposta associação com o crime organizado.
Durante a conversa, o parlamentar defendeu o papel dos pastores e da igreja no combate à violência contra a mulher, embora tenha sido técnico em seus argumentos para diferenciar posições políticas. Ele critica projetos no Congresso que tratam de misoginia, alegando riscos de interpretações religiosas.
Contexto político e visão sobre segurança
Otoni de Paula descreve o Rio de Janeiro como um estado com forte conluio entre autoridades e facções criminosas. Segundo ele, o crime estaria presente em várias secretarias e batalhões, com denúncias de atuação de comandantes ligados ao Comando Vermelho e a milícias. Ele aponta que a política estaria fortemente influenciada pelo crime organizado.
Segundo o deputado, houve uma falha de governança entre Witzel e Castro, incluindo acusações de loteamento de secretarias e de tomada de decisão sem delimitar poderes. Ele cita números de secretarias investigadas e afirma que magistrados e policiais teriam operado com influência de facções. Ainda assim, não detalha provas apresentadas a autoridades.
Otoni de Paula também comenta a atuação policial na Penha e no Alemão, criticando a violência e a suposta impunidade de alguns agentes. Ele afirma que a comissão de direitos humanos se posicionou de forma diferenciada, defendendo vigilância para evitar abusos, mas mantendo respaldo à atuação policial.
Posições sobre eleições e alianças
O deputado afirma que, na disputa estadual, o objetivo é preservar um governo que considere eficaz e sem vínculos com crime organizado. Ele diz ter críticas a Paes apenas para apontar áreas de melhoria na gestão, como segurança e finanças públicas. Em relação a Caiado, ele vê o governador como a opção de centrão direitista que busca pacificar o país, ainda que discorde de algumas promessas.
A entrevista também aborda a relação com o eleitorado evangélico. De Paula afirma que Flávio Bolsonaro, embora tenha se reaproximado da igreja, continua sendo uma figura controversa para o seu campo. O deputado sustenta que a ética pública e a gestão devem orientar o voto, especialmente em temas de governança e segurança.
Sobre o panorama nacional
Otoni de Paula comenta o governo Lula, apontando falhas fiscais, apesar de elogiar políticas voltadas a camadas menos favorecidas. Alega que o equilíbrio entre orçamento público e necessidade de investimento é essencial para o país, em especial no contexto de educação e emprego, sem abandonar o combate à corrupção.
A entrevista também aborda o debate sobre políticas de gênero. O deputado afirma apoio a projetos que protegem mulheres, porém critica iniciativas que, na sua visão, poderiam desvirtuar o debate ou criar interpretações extremas sobre misoginia. Em relação aos direitos civis, ele defende uma leitura bíblica que promova a igualdade entre homens e mulheres sem colocar a religião acima de direitos humanos.
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