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18.755 mortes a mais: custo humano da Amazônia abandonada pelo Estado

Estudo aponta que 18.755 homicídios a mais na Amazônia entre 1999 e 2023 decorrem de ilegalidade, ausência do Estado e lutas por território

Manifestantes vestidos com fantasias de animais seguram cartazes durante um protesto organizado por indígenas Guarani e ativistas ambientais para exigir justiça pelo assassinato do jornalista britânico Dom Phillips e do ativista indígena Bruno Pereira
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  • Entre 1999 e 2023, pequenas cidades da Amazônia Legal registraram 18.755 mortes a mais do que teriam se seguissem a taxa do restante do país, segundo o estudo Amazônia 2030.
  • A violência é associada a atividades ilegais: grilagem de terras, exploração ilegal de madeira, garimpo, ausência de direitos de propriedade e, mais recentemente, tráfico internacional de drogas.
  • Os rios passaram a funcionar como corredores logísticos do narcotráfico e terras públicas passaram a servir de ativos de apropriação e lavagem de dinheiro.
  • A pesquisa aponta que a violência não é fruto do acaso, mas um mecanismo de controle territorial para acesso a recursos e rotas, alimentado por facções criminosas.
  • Para enfrentar o problema, é necessária uma estratégia integrada: governança territorial, fiscalização ambiental, segurança pública, controle de fronteiras e cooperação entre órgãos, com presença efetiva do Estado.

O estudo do projeto Amazônia 2030 aponta que o aumento da violência na região não é resultado do acaso, mas de um modelo de ilegalidade que opera com pouca presença do Estado. Entre 1999 e 2023, pequenos municípios da Amazônia Legal registraram 18.755 homicídios a mais do que teriam acompanhado a tendência nacional.

A pesquisa, realizada por Leila Pereira e Rafael Pucci (USP) e Rodrigo Soares (Insper), analisa a evolução dos homicídios e a relação com economias ilegais. A conclusão é de que a violência é produzida dentro de um sistema de grilagem, garimpo, desmatamento e, mais recentemente, tráfico de drogas.

A relação entre território, recursos e crime fica evidente ao observar alterações na logística criminosa. Rios funcionam como corredores do narcotráfico; terras públicas viraram ativos financeiros; municípios pequenos passaram a ocupar papéis estratégicos em disputas locais.

Nessa transformação, a Amazônia deixou de ser apenas um bioma para tornar-se infraestrutura do crime. A presença do Estado e a fiscalização ambiental são apontadas como ferramentas-chave para reduzir a violência, conforme o estudo.

Até meados dos anos 2000, o foco era disputas por madeira e conflitos fundiários, com direitos de propriedade frágeis. A partir de 2010, o garimpo ilegal, principalmente de ouro, ganhou centralidade e acentuou conflitos por recursos.

A década de 2010 em diante amplia o papel do tráfico de drogas. Desde 2018, facções criminosas passam a influenciar rotas, fronteiras e cadeias logísticas, conectando a Amazônia a redes nacionais e internacionais.

Segundo os autores, sem ordenamento territorial, sem definição de direitos de propriedade e sem presença efetiva do Estado, políticas setoriais isoladas falham. O crime organizado se adapta, tornando necessário um esforço integrado.

A sugestão central é uma estratégia que articule governança territorial, políticas ambientais, segurança pública, controle de fronteiras e cooperação entre instituições. A Amazônia passa a ser tratada como componente estratégico do desenvolvimento brasileiro.

Sem visão integrada, o Brasil tende a agir de forma reativa, enfrentando efeitos sem atacar as causas. O estudo destaca que a região pode tornar-se elo de redes criminosas cada vez mais complexas.

Gustavo Nascimento, autor do estudo, ressalta a importância de entender o fenômeno sem glamourizar ou atacar a floresta. O foco é reduzir homicídios por meio de ações coordenadas entre governos e sociedade civil.

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