- País vive uma encruzilhada sobre o combate ao crime organizado, com dois caminhos possíveis: usar instrumentos legais para isolar o crime ou permitir que a criminalidade se instale no coração do Estado e da economia.
- Ao longo de vinte anos, o PCC mudou de ataques generalizados para uma máfia transnacional, com atuação em grandes mercados ilícitos e alcance até a Avenida Faria Lima.
- O crime hoje é visto como um “crime como serviço”, com redes que lavam dinheiro, obtêm explosivos e operam em setores como garimpo e comércio atacadista ilegal.
- Autoridades defendem estratégias mais eficientes, como o isolamento financeiro dos criminosos, uso de dados e cooperação entre instituições, citando a Operação Carbono Oculto como exemplo.
- O futuro depende de retomada de território pelo Estado e de abrir mercados legais que gerem oportunidades, caso contrário o PCC pode persistir como máfia dominante, porém mais controlada, ou levar o País a uma situação de maior infiltração econômica.
O Brasil enfrenta uma encruzilhada na pandemia de criminalidade organizada. Vinte anos após os ataques do PCC em São Paulo, autoridades e especialistas divergem entre isolar o crime com novos instrumentos legais ou permitir que a criminalidade se aproxime ainda mais do Estado e da economia.
O PCC mudou de formato: deixou de atacar de modo indiscriminado e passou a mirar alvos específicos, como autoridades. A facção é hoje descrita como uma máfia transacional, com redes que atuam no varejo ilícito, lavagem de dinheiro e mercados estratégicos.
Na manhã de 12 de maio de 2006, uma fila de presos avançava pelo Deic, no Carandiru, para depor em inquérito. A transferência teve papel central na escalada de violência que se seguiu, com 564 mortos em nove dias, entre eles 59 agentes.
Entre os detidos estava Marcola, líder da organização, que manteve contato com autoridades mesmo na prisão. O delegado Osvaldo Nico Gonçalves, então à frente do Garra, conduzia o seguimento. A cena marcou o início de uma década de ataques e resposta policial.
Duas décadas depois, o PCC é visto como uma organização com estrutura de holding internacional. A estratégia visa domínio de mercados ilícitos, com foco no atacado e na economia paralela, segundo especialistas ouvidos pelo Estadão.
Para a desembargadora Ivana David, o PCC já apresenta características de uma máfia identificável. A visão é compartilhada por líderes do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, que destacam a evolução para barões do crime que operam em escopo nacional.
O policiamento tem buscado reduzir o fluxo financeiro do crime para sufocar atividades. O secretário de Segurança, Osvaldo Nico Gonçalves, afirma que a glosa do dinheiro facilita o combate direto. Cooperação entre instituições é citada como caminho futuro.
A Operação Carbono Oculto, que atingiu a Avenida Faria Lima, é citada como exemplo de novas frentes de atuação contra o crime organizado. A investida mostra que o combate hoje depende de dados, inteligência e ações definidas.
Mudanças no modelo criminoso
O estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, com apoio da Abin, aponta dois modelos de negócios entre facções: o PCC, com controle de infraestruturas críticas, e o Comando Vermelho, com expansão territorial agressiva. Entre eles, o Terceiro Comando surge em alianças variáveis.
Segundo Renato Sérgio de Lima, presidente do Fórum, o futuro dependerá da forma de enfrentamento. O espaço de atuação do crime pode se ampliar ou ser contido por instrumentos legais e presença estatal em todo o território.
Leandro Piquet, professor da USP, enfatiza a sofisticação do crime, que migra para o digital e para cadeias produtivas legais que operam de forma irregular. O Brasil pode enfrentar um avanço de falsificações, contrabando e sonegação ligadas a setores estratégicos.
Cenários para o futuro
A possibilidade de o Brasil se tornar menos competitivo, com fluxos ilícitos crescendo, é mencionada por especialistas. Em contraste, o país pode direcionar esforços para isolar o crime, recuperar ativos e reduzir a influência de facções.
O promotor Lincoln Gakiya descreve cenário em que instrumentos legais, aliados a ações integradas, ajudariam a conter a criminalidade organizada. Ele aponta para um caminho de endurecimento e cooperação institucional para manter a ordem.
Em síntese, especialistas divergem sobre o caminho ideal: enfrentar o crime com controle e aperfeiçoamento institucional, ou permitir que o crime se enraíze no universo estatal e econômico.
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