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Livro revela esquema da Fiesp com empresários americanos para financiar ditadura

Livro revela que empresas americanas financiaram a ditadura via Fiesp, com fundo disfarçado; EUA mantiveram posição ambígua diante do regime

Foto da capa do livro 'Olhares Ianques: A Ditadura Brasileira nos Arquivos Norte-Americanos' mostra o presidente dos EUA Lyndon Johnson em encontro, na Casa Branca, com o senador democrata Richard Russell
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  • Em novembro de 1971 houve uma reunião na Fiesp com empresários americanos, incluindo Thomas Romanach, para tratar de apoio financeiro à ditadura brasileira.
  • As empresas teriam contribuído com valores de algumas centenas a algumas milhares de dólares, via um fundo disfarçado por meio da Fiesp.
  • O livro Olhares Ianques: A Ditadura Brasileira nos Arquivos Norte-Americanos traz as informações e aponta que o financiamento era registrado para evitar caixa dois.
  • A obra de Felipe Loureiro reúne documentos dos Arquivos Nacionais dos Estados Unidos e do Consulado de São Paulo, evidenciando o envolvimento de americanos na pauta do regime.
  • A Fiesp afirmou que os fatos citados referem-se a mais de 50 anos atrás e manteve o compromisso com o Estado Democrático de Direito; o livro adianta que as relações Brasil-EUA eram ambíguas e que o regime apresentou desorganização interna.

Em meio à publicação de um novo livro, fica explícito o papel de empresas norte-americanas em financiar, de forma dissimulada, o regime militar brasileiro. A obra aponta que, em novembro de 1971, uma reunião em São Paulo envolveu representantes da Fiesp e empresários americanos, incluindo Thomas Romanach, da General Electric, com o objetivo de apoiar a ditadura e financiar ações como a construção de uma sala de tortura e a aquisição de veículos e armamentos.

A reunião, convocada pela própria Fiesp, contou com a participação de lideranças da oligarquia paulista. Segundo o historiador Felipe Loureiro, o grupo organizou um fundo por meio da associação para registrar os aportes e manter a aparência de transparência, evitando caixa dois. Os valores seriam modestos, distribuídos entre várias empresas.

A análise sustenta que os recursos passaram a constar como despesas legítimas em registros formais, por meio de um fundo educacional administrado pela Fiesp. O objetivo seria disfarçar a natureza política dos recursos destinados à ditadura, conforme os documentos analisados pelo pesquisador.

Em entrevista, Loureiro detalha que o material reúne relatos de diversos setores da sociedade, com acesso amplo de diplomatas e empresários aos arquivos norte-americanos durante as décadas de 1960 e 1970. O National Archives and Records Administration é citado como fonte central das informações, com documentos que apontam o envolvimento de empresários na operação.

Entre os nomes citados, além de Romanach, aparecem executivos de empresas como Caterpillar, DuPont e Anderson Clayton, além da Câmara Americana de Comércio. A documentação aponta telegramas do consulado dos EUA em São Paulo relacionados ao episódio e recebidos com confidencialidade pelo Departamento de Estado.

A obra também aborda a postura ambígua dos Estados Unidos diante do regime, destacando que a embaixada manteve relação institucional, mesmo diante de violações de direitos humanos. Em diferentes momentos, o texto enfatiza que Washington não adotou uma posição pública enérgica nos estágios iniciais do regime.

Segundo o livro, o governo norte-americano tinha canais de comunicação com lideranças locais, mas havia tensões entre o que esperavam manter como relação diplomática e as ações locais de repressão, como o AI-1 e a Operação Limpeza. A análise descreve uma distância entre a retórica e a prática norte-americana.

O estudo aponta que, ao longo do governo Geisel, o cônsul Frederic L. Chapin teve papel relevante ao reportar violações de direitos humanos à autoridade americana, incluindo a morte de Vladimir Herzog, em 1975. O autor ressalta a presença de informações que dificultam a visão simplista sobre os agentes militares.

A obra frisa ainda a natureza organizacional da ditadura, com disputas entre segmentos linha-dura e o alto generalato, além de indícios de corrupção. O autor considera a relação entre militares e administradores estrangeiros complexa e instrumental, sem simplificações.

A Fiesp, em nota, afirmou manter compromisso com o Estado Democrático de Direito e com a transparência de suas relações. A instituição ressalta que os documentos citados dizem respeito a fatos ocorridos há mais de 50 anos e que não refletem a atual atuação da entidade.

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