- Em abril, a BYD teve liderança de vendas no varejo de veículos no Brasil, com 14,9 mil modelos elétricos e híbridos, à frente da Volkswagen.
- Em 2024, operação de fiscalização resgatou 163 trabalhadores chineses no canteiro da BYD em Camaçari, ba, flagrantemente expostos a condições degradantes e jornadas exaustivas.
- A BYD ficou três dias na lista suja do trabalho análogo à escravidão, e conseguiu liminar para retirar o nome até o julgamento do caso.
- Em Brasília, o secretário de Inspeção do Trabalho, Luiz Felipe Brandão de Mello, foi demitido, em meio a controvérsias sobre interferências do ministro do Trabalho, Luiz Marinho, no caso.
- O Ministério do Trabalho notificou as empresas e devida indenização foi paga; 163 trabalhadores optaram por retornar à China, e houve deliberação sobre um acordo de ajuste de conduta (TAC) que não foi confirmado.
A BBC News Brasil revela bastidores da fiscalização que resultou no resgate de 163 trabalhadores chineses em Camaçari, na Bahia, no fim de 2024, e de desdobramentos em Brasília no mês passado. A BYD entrou na lista suja do trabalho análogo à escravidão em abril de 2026, após a operação.
A fiscalização ocorreu em 2024 e envolveu procuradores do trabalho, auditores, forças de segurança e representantes da União. O resgate antecedeu uma série de medidas administrativas e debates sobre responsabilidades de empresas estrangeiras no Brasil.
A operação identificou alojamentos precários, jornadas exaustivas, retenção de salários e de passaportes, além de vigilância de PMs e condições insalubres. Os trabalhadores chineses tinham contratos de até um ano e recebiam parte do pagamento no exterior.
A BYD superou a Volkswagen em abril, tornando-se líder de vendas no varejo no Brasil com 14,9 mil modelos elétricos e híbridos. No entanto, a marca entrou na lista suja após o resgate de 163 trabalhadores na Bahia, ocorrido mais de um ano antes.
Sem dinheiro e vigiados por PMs armados
Depoimentos indicam que os trabalhadores vieram de várias regiões da China, muitos analfabetos, e com mulheres entre eles. Promessas de salários entre 12 mil e 15 mil yuans não foram cumpridas integralmente.
O dinheiro pago foi direcionado a contas no exterior, com acesso restrito. Os alojamentos eram monitorados por policiais militares de folga, o que limitava a circulação dos trabalhadores pela cidade.
A maioria não possuía passaporte; documentos ficaram sob chave em um escritório da obra. As empresas alegaram necessidade de regularização migratória, o que não justificava o atraso na liberação dos documentos.
Condições e jornada de trabalho
A jornada habitual era de cerca de 10 horas diárias, de segunda a domingo, com folgas apenas em dias de chuva. Banheiros e cozinhas eram inadequados e não havia papel higiênico nos sanitários.
Relatos indicam insolação, falta de protetor solar e condições de higiene precárias. Dois trabalhadores sem qualificação atuavam no canteiro, levantando questionamentos sobre a necessidade de mão de obra estrangeira para funções braçais.
Entre os depoimentos, um carpinteiro afirmou ter passado por cirurgia após acidente na obra, e um pintor revelou arrependimento por ter aceitado o trabalho no Brasil e desejou voltar imediatamente.
A responsabilização das empresas
A fiscalização concluiu que as atividades, formalmente terceirizadas, eram geridas pela BYD, com supervisão direta de engenheiros e representantes da montadora. Foi emitida notificação de trabalho análogo à escravidão, com reparos a serem feitos.
Após a inspeção, os trabalhadores receberam verbas rescisórias e as passagens de retorno à China foram custeadas pela BYD e pelas empresas envolvidas. Todos os 163 trabalhadores optaram pelo retorno.
Do Brasil à lista suja: desdobramentos em Brasília
O processo segue no Ministério do Trabalho, com direito à defesa e a eventual recurso. A BYD buscou acordo para um TAC, com possibilidade de retire do cadastro caso cumprisse medidas, porém não houve acordo definitivo.
Em abril, a lista suja foi publicada, mas a BYD obteve liminar que retirou o nome do cadastro poucos dias depois. O episódio motivou críticas à atuação de autoridades, com a Anafitra apontando retaliações institucionais.
A demissão de Luiz Felipe Brandão de Mello, secretário de Inspeção do Trabalho, ocorreu uma semana após a divulgação inicial da inclusão. A pasta afirmou tratar-se de ato de gestão, sem detalhes adicionais.
A BBC ouviu fontes envolvidas com o caso, que pediram anonimato. A reportagem buscou reconstruir os bastidores da operação em Camaçari e suas repercussões em Brasília, entre 2024 e 2026.
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