- A crise envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro não impede que ele chegue competitivo ao segundo turno em outubro, mantendo base entre 25% e 30% do eleitorado.
- O pesquisador Marcos Nobre afirma que não há terceira via real: a eleição envolve uma divisão entre coalizões redistributivista e anti-redistributivista, não dois polos em igual posição.
- Flávio pode se beneficiar do surgimento de um “partido digital bolsonarista”, que domina o ecossistema político digital e sustenta candidaturas, incluindo a dele, sem depender integralmente de recursos tradicionais.
- Lula lidera uma coalizão distributivista; segundo Nobre, as políticas de redistribuição já chegaram ao limite e o confronto com o Congresso é mais direto no mandato atual.
- O cenário aponta para uma Câmara e um Senado mais alinhados ao Centrão, com o governo de minoria precisando negociar em bloco; é visto como ingovernável ou de governabilidade fraca, dependendo da leitura.
Marcos Nobre, filósofo e cientista político da Unicamp, afirma que a terceira via é uma ilusão para o pleito de 2026. Em entrevista à BBC News Brasil, ele analisa o efeito das conversas entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro sobre a campanha presidencial.
Segundo ele, a relação não impede Flávio de chegar ao segundo turno. Nobre diz que o timing da crise ajuda o filho do ex-presidente, porque dá tempo para a recuperação até outubro. Ele aponta que Flávio já parte com base de apoio estável.
Nobre destaca que Flávio se beneficia de um “partido digital bolsonarista”, visto como eixo central. O livro que ele lançará em junho discute esse tema com Ana Cláudia Chaves, pelo Cebrap.
Sem terceira via e divisão estrutural
Para o pesquisador, não há espaço para uma candidatura de terceira via. A disputa atual seria entre duas coalizões: redistributivista, ligada a políticas de renda, e anti-redistributivista, ligada a frear tais políticas.
Ele afirma que a divisão decorre da distribuição da riqueza e não apenas de disputas entre esquerda e direita. A coalizão redistributivista envolve setores da esquerda e parte da direita tradicional.
Nobre indica que a extrema direita lidera a coalizão anti-redistributivista via o ecossistema digital. OBolsonarismo seria sustentado por esse partido digital, com capacidade de coordenar, engajar e disputar eleições.
Cenários institucionais e governabilidade
O pesquisador analisa o Congresso: o presidencialismo de coalizão teria passado a um governo de minoria, com orçamento intenso em emendas. O Centrão atua como bloco e condiciona votações, dificultando acordos amplos.
Segundo ele, o STF passou a exercer papel central para conter avanços do Congresso. O cenário indica maior dificuldade para governabilidade de qualquer governo, com mudanças que podem piorar a implementação de políticas.
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