Eduardo Bolsonaro participou diretamente da estrutura financeira criada para viabilizar “Dark Horse”. A informação é do The Intercept Brasil e foi divulgada em reportagem publicada nesta quarta-feira (27). O filme narra a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro. O coloca em xeque o discurso do ex-deputado de que sua única atuação no filme teria sido […]
Eduardo Bolsonaro participou diretamente da estrutura financeira criada para viabilizar “Dark Horse”. A informação é do The Intercept Brasil e foi divulgada em reportagem publicada nesta quarta-feira (27).
O filme narra a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro. O coloca em xeque o discurso do ex-deputado de que sua única atuação no filme teria sido a cessão de imagem. De acordo com as mensagens e documentos revelados pelo site de notícias, Eduardo ocupava posições ligadas à gestão, ao financiamento e à articulação de recursos para o projeto audiovisual.
A reportagem do Intercept contradiz declarações públicas feitas anteriormente por Eduardo Bolsonaro nas redes sociais. Em postagens no Instagram, ele afirmava não exercer função de gestão no filme e dizia ter apenas autorizado o uso de sua imagem e da história da família Bolsonaro. Os documentos obtidos pela investigação, porém, apresentam outra estrutura.
Um contrato de produção datado de novembro de 2023 e assinado digitalmente por Eduardo em 30 de janeiro de 2024 coloca o ex-deputado formalmente como produtor-executivo de “Dark Horse”. Além dele, o deputado Mario Frias e a produtora americana GoUp Entertainment, sediada na Flórida, também exerciam essa função.
O documento afirma que os produtores-executivos participariam de atividades relacionadas ao desenvolvimento financeiro do longa, incluindo “considerações estratégicas relacionadas ao financiamento do filme”, preparação de documentos para investidores, busca de mecanismos de financiamento, obtenção de créditos e incentivos fiscais, colocação de produtos e patrocínios.
Na prática, o contrato atribuía aos produtores participação direta nas decisões sobre como os recursos seriam captados e administrados durante a produção cinematográfica.
Outro detalhe revelado pelos documentos é que o filme inicialmente tinha outro nome. O contrato registra que Jair Bolsonaro havia cedido os “direitos de história de vida” para uma produção intitulada “O Capitão do Povo”, nome posteriormente substituído por “Dark Horse”.
Thiago Miranda, fundador do portal Leo Dias, também foi envolvido no esquema
As mensagens obtidas pelo Intercept mostram Eduardo Bolsonaro discutindo diretamente maneiras de acelerar transferências financeiras para os Estados Unidos. Os diálogos envolvem Thiago Miranda, fundador e sócio do Portal Leo Dias, apontado pela reportagem como intermediador das negociações envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master.
Em uma das conversas reveladas, Miranda encaminha a Vorcaro uma captura de tela de uma mensagem enviada por Eduardo Bolsonaro. No texto, Eduardo afirma que “o ideal seria haver os recursos já nos EUA” porque movimentações financeiras realizadas dentro do território americano seriam “tranquilas”.

Na mesma mensagem, Eduardo demonstra preocupação com a possibilidade de dificuldades para grandes transferências internacionais partindo do Brasil. Segundo ele, caso empresas brasileiras precisassem fazer remessas elevadas para os Estados Unidos, os envios poderiam ter de ocorrer “aos poucos”, em operações parceladas que demorariam cerca de seis meses.

Na sequência, Eduardo escreve: “Solução: enviar o máximo possível ainda neste sistema atual, com o remetente atual e etc. Será que conseguimos?”.
O Intercept afirma que a mensagem foi encaminhada por Thiago Miranda a Daniel Vorcaro em março de 2025 — o mesmo mês em que Eduardo Bolsonaro anunciou licença do mandato parlamentar para permanecer nos Estados Unidos e buscar, segundo suas próprias palavras, “devidas sanções aos violadores de direitos humanos”.
Questionado pela reportagem, Thiago Miranda afirmou que não participou da produção, gestão financeira ou estratégia de lançamento do filme e disse ter apenas intermediado contatos entre investidores e os responsáveis pelo projeto.
Minuta classificava Eduardo como “financiador”
Além do contrato principal, o Intercept afirma ter obtido uma minuta de aditivo contratual datada de fevereiro de 2024 em que Eduardo Bolsonaro aparece formalmente classificado como “financiador” do filme.
Segundo o documento, Eduardo se comprometeria a “financiar parcialmente a produção cinematográfica” e autorizaria o uso de recursos financeiros investidos por ele no projeto.
A reportagem destaca que não há confirmação de que o aditivo tenha sido efetivamente assinado. Ainda assim, o conteúdo do documento amplia a divergência entre os registros obtidos pelo Intercept e as declarações públicas de Eduardo Bolsonaro sobre sua participação no filme.
Posteriormente, Eduardo admitiu ter investido cerca de R$ 350 mil na produção utilizando dinheiro obtido com venda de cursos. Segundo ele, o valor teria sido devolvido posteriormente.
GoUp Entertainment e ligação com ONG investigada
A produtora responsável pelo filme, GoUp Entertainment, é sediada na Flórida e tem como sócios a empresária brasileira Karina Ferreira da Gama e o brasileiro naturalizado americano Michael Brian Davis.
A reportagem lembra que Karina também aparece ligada ao Instituto Conhecer Brasil, organização que recebeu ao menos R$ 108 milhões da Prefeitura de São Paulo para operar um contrato de Wi-Fi público. Segundo o Intercept, o Ministério Público passou a investigar o contrato após apontamentos sobre entregas não concluídas.
O texto também cita que o ministro do Supremo Tribunal Federal Flávio Dino determinou abertura de apuração preliminar para investigar possível direcionamento de emendas parlamentares para projetos culturais, incluindo “Dark Horse”.
Segundo reportagem mencionada pela TV Globo, o STF tentava intimar Mario Frias para prestar esclarecimentos sobre possíveis irregularidades relacionadas a recursos destinados ao Instituto Conhecer Brasil. O parlamentar teria destinado R$ 2 milhões em emendas à ONG.
Vorcaro prometeu US$ 24 milhões para o filme
A investigação do Intercept afirma que Daniel Vorcaro se comprometeu a repassar US$ 24 milhões para financiar “Dark Horse”. Na cotação da época, o valor equivalia a aproximadamente R$ 134 milhões. Ao menos US$ 10,6 milhões (cerca de R$ 61 milhões) já haviam sido pagos entre fevereiro e maio de 2025 em seis operações financeiras ligadas ao projeto cinematográfico.
A Polícia Federal passou a investigar se parte desses recursos poderia ter sido utilizada para custear despesas de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.
O Intercept afirma ainda que parte do dinheiro negociado por Flávio Bolsonaro junto a Vorcaro foi enviada ao Havengate Development Fund LP, fundo registrado no Texas e ligado a aliados de Eduardo Bolsonaro.
Fundo no Texas e estrutura financeira
Parte dos recursos negociados para financiar “Dark Horse” foi enviada ao Havengate Development Fund LP, fundo registrado no Texas e ligado a aliados de Eduardo Bolsonaro, segundo documentos obtidos pelo Intercept. O fundo tinha como agente legal o escritório do advogado Paulo Calixto, responsável pelo processo imigratório de Eduardo nos Estados Unidos.
Os registros societários também apontam o corretor Altieris Santana na estrutura do fundo. Em uma das mensagens reveladas pela reportagem, Eduardo Bolsonaro afirma que Altieris estaria disponível para reuniões presenciais relacionadas às operações financeiras discutidas pelo grupo.
No Instagram, Eduardo afirmou que o escritório de Paulo Calixto atuava apenas na “gestão burocrática, financeira e legal dos recursos” e disse ter apresentado o advogado a Mario Frias “por saber da sua competência”.
Filme prometia Green Card e lucro a investidores
Os documentos analisados pelo Intercept mostram que “Dark Horse” tinha orçamento estimado entre US$ 23 milhões e US$ 26 milhões. A estratégia de financiamento previa a venda de 40 cotas de US$ 500 mil para investidores privados.
O plano de negócios incluía pacotes VIP. Quem investisse US$ 1 milhão teria direito a participar do conselho de produção do filme. Já o pacote mais caro, de US$ 1,1 milhão, oferecia explicitamente uma “oportunidade de imigração” para os Estados Unidos vinculada ao investimento no longa, com promessa de acesso facilitado ao Green Card americano.
Os documentos também previam devolução integral do valor investido, lucro adicional de 20% e posterior divisão dos lucros líquidos do filme entre investidores e produtores.
As revelações ampliam a pressão sobre o entorno político e financeiro ligado à produção de “Dark Horse”. O que começou como um filme sobre Jair Bolsonaro passou a envolver contratos, fundos nos Estados Unidos, transferências milionárias e uma investigação da Polícia Federal sobre a circulação internacional de recursos.
Os documentos obtidos pelo Intercept revelam que, nos bastidores, o longa talvez o longa apresente muito mais do que uma boa história.
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