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YouTube vira ator político no debate público

Pesquisa da USP revela o YouTube como ator político, organizando debates por métricas de engajamento e monetização, com impactos na democracia e na mídia.

A imagem contém a logo da plataforma Youtube em um celular.
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  • Estudo da Universidade de São Paulo (USP) analisou vídeos do YouTube Brasil entre 2013 e 2022 e aponta a plataforma como ator político, organizando debates com base em engajamento e monetização.
  • A pesquisa sustenta que a esfera pública passou de mediação institucional para mediação algorítmica, com critérios econômicos orientando o debate.
  • As Jornadas de Junho de 2013 são consideradas marco importante, impulsionando um ciclo político mais radical e a ascensão da nova direita.
  • O trabalho aponta impactos na educação e em movimentos sociais, com sinais de falsificações históricas e negacionismo em sala de aula.
  • Observa ainda deslocamento de veículos de comunicação tradicionais para as redes, uso de estratégias de audiência e a proeminência de discursos afetivos, medo e ódio na amplificação algorítmica.

A USP examinou o papel do YouTube Brasil entre 2013 e 2022, apontando a plataforma como um ator político que molda o debate público por meio de métricas de engajamento e monetização. O estudo analisa discursos políticos na plataforma e sugere um impacto elevado na organização de novos ciclos de discussão. A pesquisa destaca a presença do algoritmo como elemento central na mediação de conteúdos.

Segundo a pesquisa, o YouTube reorganiza a esfera pública, antes guiada pela mediação institucional e pela razão. Hoje, a gestão do debate ocorre cada vez mais pela lógica algorítmica, com interesses econômicos moldando o alcance de conteúdos e a visibilidade de certos discursos. A tese discute mudanças profundas nesse território de participação.

O pesquisador Paulo Crispim, autor da tese, aponta que as Jornadas de Junho de 2013 marcam a transformação na cobertura política: de um pluralismo acentuado para um cenário com maior radicalização e negociação com a política tradicional. O trabalho analisa como esse momento abriu espaço para a ascensão de correntes políticas ligadas a engajamento digital.

A investigação destaca que a combinação entre plataformas digitais, novas formas de circulação de conteúdos e fragmentação da mídia tradicional alterou a dinâmica de debate público. Em áreas como educação e movimentos sociais, há sinais de distorção de narrativas históricas e de surgimento de negacionismo em temas comuns.

Além das mudanças na esfera pública, o estudo observa impactos em instituições tradicionais, como família, igreja e Estado, que perdem espaço de mediação. As big techs passam a desempenhar papel relevante na organização de debates, favorecendo interesses comerciais e a monetização de conteúdos.

O trabalho também aponta que a plataforma não cria disputas, mas facilita a mutação do espaço de debate. A análise não atribui responsabilidade exclusiva às tecnologias; ela ressalta que, sem esses recursos técnicos, a disputa ainda assim ocorreria, apenas com formato diferente.

A pesquisa observa a participação de criadores de conteúdo da direita, como Olavo de Carvalho e Nando Moura, que passaram a disputar espaço com veículos tradicionais. O YouTube aparece como um dos principais ambientes para circulação de discursos dessa corrente, de acordo com o estudo.

A conclusão aponta que esse redesenho do espaço político pode enfraquecer a mediação jornalística e ampliar a difusão de discursos antidemocráticos, agindo sobre a confiança pública. No entanto, o pesquisador ressalta que momentos importantes, como impeachment de Dilma Rousseff e eleição de Jair Bolsonaro, envolvem redes além das redes sociais.

A dinâmica entre mídia tradicional e redes

A análise também observa deslocamentos de veículos tradicionais para as redes sociais, com estratégias voltadas a audiência e engajamento. Veículos como Jovem Pan, Globo e Folha de S.Paulo aparecem nessa lógica de presença digital, com uso de manchetes impactantes e formatos que atraem atenção.

Orientações para o debate público

Os resultados destacam uma identidade política performativa, sustentada por técnicas que ampliam a visibilidade dos conteúdos. O estudo enfatiza que, além do conteúdo em si, o modo de apresentação e a transmissão por meio do algoritmo valorizam afetos como medo e raiva, que favorecem a disseminação.

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