- Odesson Alves Ferreira, 71 anos, carrega memórias e sequelas da contaminação por Césio-137 em Goiânia, ocorrida em setembro de 1987.
- O acidente começou com o desmonte de uma bomba de césio em um prédio em ruínas, onde o pó brilhante circulou entre famílias.
- O ex-presidente da Associação das Vítimas do Césio 137 diz que a produção de ficção foca em uma única família, subestimando a tragédia que envolveu quatro depósitos e muitos contaminados.
- Ele relata erros das autoridades, como o banho de mangueira no Estádio Olímpico, a água contaminada que acabou no lençol freático e o atraso no isolamento das vítimas.
- A sobrinha Leide das Neves morreu aos seis anos; Odesson afirma que o pó que brilha foi o verdadeiro carrasco e pretende lançar um livro para preservar a verdade e a memória com dignidade.
Odesson Alves Ferreira, motorista e líder de associação de radioacidentados, relembra a tragédia do Césio-137 em Goiânia, ocorrida em setembro de 1987. A história que ele viveu, com marcas físicas e emocionais, contrasta com a forma como a crise é retratada em obras recentes. O relato aponta falhas de gestão e de comunicação que contribuíram para a disseminação do material.
Aos 71 anos, ele carrega na memória o episódio em que uma bomba de césio abandonada foi desmontada. Dois homens romperam a proteção da cápsula, gerando um pó que chamou a atenção de moradores. A falta de informação transformou o veneno em curiosidade pública, ampliando o contágio em diversos ambientes.
Oriundo da defesa dos radioacidentados, Odesson sustenta que a narrativa televisiva tende a focalizar uma única família, desconsiderando a dimensão real do desastre, que envolveu quatro depósitos e um rastro de contaminação mais amplo. Ele argumenta que esse recorte distorce a compreensão da tragédia.
A verdade sobre o Césio-137
Odesson enfatiza que o local onde o material foi encontrado não era uma clínica protegida, mas um prédio degradado, usado como banheiro público. Os trabalhadores que retiraram o material, como Wagner Mota e Roberto Santos, buscavam apenas o sustento na sucata de chumbo, segundo ele.
A entrevista
A entrevista com Odesson foi viabilizada pela mediação da professora Ana Paula Mendes. O relato de Odesson retrata detalhes do dia a dia na época, quando, atuando como motorista de ônibus, ele transportava até mil passageiros por dia e entrou em contato com o material em 22 de setembro de 1987. A partir daí, ele afirma ter se tornado fonte radioativa.
Ele relembra que, após o ocorrido, houve erros técnicos das autoridades, incluindo um banho de água inadequado no Estádio Olímpico, cuja água contaminada acabou no lençol freático. Segundo o relato, o isolamento das vítimas ocorreu tardiamente, após a contaminação já ter avançado pelo solo e pela rede de esgoto.
Leide das Neves, sobrinha de Odesson, é citada como símbolo da tragédia. A menina, que tinha seis anos ao falecer, é descrita pelo entrevistado como uma criança inteligente que sonhava com o futuro. O peso da culpa é creditado ao pai da menina, Ivo, que viveu com o remorso de perder a filha.
Realidade da emergência radioativa
Hoje, Odesson defende que as lições da crise vão além do luto. Ele critica a extinção da Fundação Leide das Neves e a precarização da assistência médica em Goiás. Em sua visão, é essencial registrar os fatos com precisão para futuras gerações, especialmente em um momento em que obras de ficção despertam curiosidade sobre o tema.
A vida de Odesson continua marcada pelo desejo de tornar públicas as informações verificáveis sobre Goiânia. Entre o rastro da tragédia e a busca pela dignidade humana, ele planeja publicar um livro que registre o que ocorreu, afinal, diz ele, a verdade precisa avançar além da narrativa sensacionalista.
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