A falta de uma política de Estado permanente de busca e identificação complica a memória, a reparação e a justiça no Brasil. Pesquisadores da Unifesp trabalham na identificação de ossadas encontradas na vala de Perus, em São Paulo, resultado de um período de ditadura.
Há exatos 62 anos, o golpe de 1964 iniciou um regime que durou 21 anos. O movimento reprimiu opositores, censurou a imprensa e gerou desaparecimentos forçados, que permanecem como tema central para a memória estatal e a busca por identidades.
Pesquisadores do Centro de Antropologia e Arqueologia Forense (CAAF) afirmam que a ausência de um programa nacional de busca — estável e permanente — dificulta ações forenses e a identificação de vítimas. Afirmam ser necessária uma institucionalidade que garanta normas, independentemente dos governos.
Política de Estado ausente
Os trabalhos do CAAF envolvem a identificação de 1.049 caixas com ossadas do acervo encontrado no Cemitério Dom Bosco, em Perus, datado de 1990. Entre as pessoas sepultadas estavam indivíduos considerados indigentes, incluindo desaparecidos políticos.
Até hoje, já foram identificadas quatro vítimas do período: Dimas Antônio Casemiro e Aluísio Palhano Pedreira Ferreira, em 2018; Denis Casemiro e Grenaldo de Jesus Silva, em 2025. Outras duas identidades já vinham sendo reconhecidas antes, em 1992 e 2005.
A análise depende de financiamentos periódicos que, no passado, sofreram cortes e interrupções. Em 2019, o Grupo de Trabalho Perus foi extinto, o que dificultou repasses para o trabalho de identificação.
Avanços e desafios
Em 2024, o governo firmou novo acordo técnico com o CAAF para retomar as análises de ossadas. Segundo o coordenador, o atual governo retomou diálogos em 2023 e pode incluir no orçamento de 2024 a continuidade do pagamento do acordo.
Apesar dos progressos, não há garantia de financiamento estável. Edson Teles alerta que mudanças de governo e cortes orçamentários podem interromper as identificações em andamento, ainda que já tenham ocorrido avanços em 2025.
A ditadura militar ainda é tema sensível no país. Pesquisadores destacam que a elite que apoiou o regime permanece em posições de poder, o que dificulta o aprofundamento da memória histórica e a continuidade de pesquisas arqueológicas em locais como o antigo DOI-Codi, em São Paulo.
A construção de políticas públicas para desaparecimentos forçados, mesmo na democracia, é defendida como essencial para enfrentar a violência de Estado que, segundo estimativas, aflige dezenas de milhares de pessoas anualmente.
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