Em seu novo livro Limpar o Mundo, Françoise Vergès analisa por que a desigualdade é naturalizada nas sociedades ocidentais e como o trabalho invisível sustenta o capitalismo racial, segundo a entrevista à Marie Claire. A pesquisadora francesa aponta que o que não vemos é parte essencial da organização social.
A autora defende que o capitalismo não gera apenas resíduos materiais, mas também populações descartáveis. A produção de corpos e territórios considerados inúteis é parte do funcionamento do sistema, diz Vergès, que liga limpeza, higiene e hierarquias ao projeto colonial.
Ela discute a relação entre branquitude, pureza e ordem, mostrando como essas noções persistem na vida doméstica, na organização das cidades, na cultura e na linguagem. O argumento central é que nada é tão limpo quanto parece.
A filósofa questiona por que a desigualdade é tratada como prioridade e aponta que a divisão entre limpo e sujo vem junto da desumanização de pessoas. Segundo Vergès, o discurso higienista teve papel fundamental no século 19.
Brasil: 6 milhões de trabalhadoras domésticas, majoritariamente negras, ilustram a herança colonial e escravocrata. Vergès afirma que esse trabalho é exploratório e muitas vezes envolve afastamento de filhos para cuidar de terceiros.
Nessa lógica, o afeto pode ocultar relações de exploração. A trabalhadora é retratada como generosa pela empregadora, mas a relação permanece desigual. Caridade é vista como forma de ocultar dignidade comprometida.
A linguagem também funciona para legitimar a gentrificação. Expressões sobre bairros “higienizados” e populações “removidas” ajudam a naturalizar a desigualdade e a segregação espacial.
Segundo a entrevista, museus europeus representam o passado colonial de modo estéril. Objetos saqueados ficam expostos como se fossem objetos mortos, sem afeto, reforçando uma visão de mundo que despreza o impacto humano da colonização.
A pesquisadora aponta que reconhecer violências históricas implica aceitar reparações e mudanças. A recusa a reconhecer os crimes do passado sustenta narrativas de civilização e progresso que precisam ser desconstruídas.
Vergès também aborda a reação conservadora a debates sobre colonialismo e direitos das mulheres. O receio de perder privilégios gera resistência a avanços femininos e a políticas de reparação.
O movimento red pill é visto como retrocesso, ampliando a hostilidade contra mulheres que reivindicam direitos. A pesquisadora descreve um ciclo de masculinidade tóxica que impede o diálogo e reforça discriminações.
Ela associa essa resistência a uma visão de masculinidade que valoriza poder, dinheiro e domínio sobre os outros, desconsiderando estudos, arte e lazer. A crítica aponta que esse modelo não traz satisfação nem vínculos duradouros.
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