Machado de Assis, em Crônicas Escolhidas, analisa o ano de 1888, marcado pela abolição, por meio de crônicas de jornal. O registro, publicado pela Penguin e Companhia das Letras, traz reflexões sobre o período e o modo como o tema foi tratado naqueles dias.
Com tom feroz, ele critica a benevolência que libertou escravos, ao mesmo tempo em que perpetuava salários baixos e condições de servidão. Em 19 de maio de 1888, ele descreve a pretensa libertação como fio condutor de uma propaganda eleitoral, insinuando que a suposta ação libertária poderia servir de palco para interesses políticos.
Sua escrita recorre a imagens fortes para lembrar a lentidão histórica. Em 27 de maio de 1888, ele cita o meteorito Bendegó, retratando a abolição como um processo que avança lentamente, enquanto a nação celebrava com júbilo. A metáfora aponta para o contraste entre o entusiasmo público e o ritmo das mudanças.
Quase 140 anos após a abolição, o texto aponta paradoxo: há alforria, mas falta liberdade; há voto, mas faltam poderes; há cortes, mas faltam juízes representativos. O autor sugere que a emancipação formal não garantiu plenamente direitos e proteção social.
Hoje, sinais de continuidade da desigualdade são destacados. A ausência de uma mulher negra no STF, bem como a demora na aprovação da PEC da Reparação, indicam que ainda há lacunas entre a abolição legal e a reparação efetiva. A análise de Machado oferece perspectiva histórica para entender o momento atual.
Entre na conversa da comunidade