O relatório autópsia interno dos democratas sobre as eleições de 2024 aponta falhas amplas em gasto, estratégia midiática e organização, que teriam contribuído para a derrota em nível nacional e para a perda da Casa Branca. O documento, com quase 200 páginas, foi divulgado na quinta-feira após meses de expectativa.
Entre os achados, o texto descreve padrões de gasto e contato com eleitores que não combinaram com o tamanho da campanha de 2 bilhões de dólares, revelando um descompasso entre orçamento de mídia e de mobilização. O relatório sugere que a estratégia de escassez ficou desatualizada frente aos recursos disponíveis.
Não há, porém, uma explicação sobre a decisão de Joe Biden permanecer na disputa. O documento não examina sinais de declínio cognitivo ou preocupações de doadores, nem analisa publicamente a escolha de Kamala Harris como candidata. A transição de Harris para candidata foi tratada como evento que ocorreu à parte do esforço da campanha.
A ausência de menção a Gaza e a Israel é explícita no material. Embora tenha havido mobilização de eleitores em estados-chave, o relatório não aborda o tema de forma direta, nem seu impacto na percepção de Harris entre eleitores democratas. Pesquisas pós-eleitorais citadas indicam influência de questões internacionais na decisão de voto.
O relatório não investiga a identidade de Harris como candidata. Embora trate de lacunas entre eleitores masculinos, suburbanos, rurais e latino-americanos, não analisa se a narrativa sobre raça e gênero influenciou a cobertura midiática ou as linhas de ataque, apesar de reconhecer um ambiente eleitoral desafiador para a vice-presidência.
A ausência de menções a figuras da mídia digital também é relevante. O documento discute a dificuldade de alcançar jovens homens por meios digitais, em contraste com a adesão a mídia tradicional. A participação de figuras como Joe Rogan fica fora da análise, assim como a influência de entrevistas de alto alcance.
Já entre os aspectos positivos, o relatório registra cerca de US$ 150 milhões gastos em contato com eleitores, parte de um orçamento total de US$ 2 bilhões em mídia. O gasto com contato representa um terço aproximado do que seria o patamar esperado por estruturas tradicionais da campanha, segundo o próprio relatório.
Outro ponto crítico é a ausência de pesquisa interna sobre Kamala Harris no momento em que se tornou candidata. A equipe da vice-presidente não disporia de pesquisa própria para orientar instrumentos de estudo, e o White House não teria preparado adequadamente a vice-presidente, no que o documento descreve como uma oportunidade perdida.
O relatório também traz notas de rodapé que apresentam ressalvas sobre a veracidade de algumas afirmações. Em várias páginas, há indicações de que não há evidência para determinados trechos e que dados públicos contradizem suposições internas. O comitê destaca que nem todas as conclusões foram validadas de forma independente.
O presidente do DNC, Ken Martin, afirmou que publicou o relatório na íntegra, sem edições, com anotações para afirmações não verificáveis. O documento foi acompanhado de ressalvas sobre a metodologia e a confiabilidade de parte das informações.
Segundo o material, a queda de votação entre homens foi considerada redutora de potencial eleitoreiro, mas não inevitável. O relatório cita ganhos de governadores em estados como Carolina do Norte para explicar que a diferença de desempenho entre grupos demográficos poderia ser superada com estratégias diferentes.
A reportagem entrevistada pela equipe de redação destaca que Anna Betts contribuiu com informações de Nova York sobre o tema. O conjunto de dados sugere que a administração atual enfrentou um conjunto de desafios estratégicos que comprometeram o ritmo da campanha em diferentes frentes. Fonte: The Guardian.
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