Jenny Erpenbeck lança no Brasil o romance Kairós, vencedor do Booker International, em meio a debate sobre extremismo na Alemanha. A autora discutiu a relação entre a reunificação e o avanço da direita na entrevista à Folha, realizada em Berlim Oriental.
O livro principal acompanha Katharina e Hans, um casal cuja história de amor acompanha o conturbado cenário político entre os anos 1980 e 1990. A narrativa cruza vida privada com mudanças estruturais do país dividido e após a queda do muro.
Erpenbeck aponta que a Alemanha Oriental enfrentou carências cotidianas, como abastecimento limitado e serviço militar obrigatório, contrastando com a vida no Ocidente. A autora usou pesquisas em arquivos na Alemanha e na Polônia.
A escritora defende que a reunificação foi marcada por uma superioridade econômica que impôs padrões ocidentais. Segundo ela, houve uma assimetria que afetou a integração de profissionais e instituições da antiga RDA.
Ela associa o fortalecimento da extrema direita à insatisfação com estruturas de poder não transparentes e com políticas da União Europeia. O argumento central é que a memória da RDA continua relevante para entender o presente político alemão.
Para Erpenbeck, é essencial discutir o passado e suas contradições. A obra busca lembrar que projetos emancipatórios também enfrentaram abusos e que o ideal revolucionário pode se perder quando se alinha ao poder.
Na visão da autora, a ascensão de movimentos nacionalistas é uma resposta a rupturas sociais e econômicas geradas pela reunificação. O tema é apresentado sem romantizações, enfatizando impactos reais para as populações orientais.
No fim, a escritora enfatiza o valor de uma memória crítica sobre a RDA. O objetivo é compreender falhas históricas, sem exortar conclusões, apenas informar sobre as complexidades da era de transição.
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