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Gastos eleitorais com a Meta crescem quase 9 vezes entre 2018 e 2024

Levantamento considera valores registrados no CNPJ da empresa no Brasil; com pagamentos via intermediárias, total pode ser maior

Gastos com a Meta cresceram nas últimas eleições (Foto: Unsplash)

Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram que os gastos eleitorais registrados diretamente no CNPJ da Meta cresceram quase nove vezes entre 2018 e 2024. O valor passou de R$ 23,2 milhões para R$ 201,5 milhões no período, um aumento nominal de 768% (sem considerar a inflação).

A empresa, dona do Facebook e do Instagram, também já aparece no topo do ranking de fornecedores das candidaturas em 2026 – ou seja, é a que mais recebeu recursos eleitorais desde o início oficial da campanha. Até sexta-feira (4/9) , R$ 20.923.976,23 haviam sido lançados no CNPJ da Facebook Serviços Online do Brasil Ltda., razão social da Meta no país.

O montante representa cerca de 5% dos R$ 394,9 milhões já gastos pelas campanhas com fornecedores até o momento. Entre eles estão empresas de publicidade e marketing, produtoras audiovisuais, gráficas, consultorias e companhias de tecnologia.

O principal serviço associado aos pagamentos à Meta é o impulsionamento de conteúdo, que responde por aproximadamente 99% do valor registrado no CNPJ da companhia. Uma parcela residual aparece em outras rubricas, como “criação e inclusão de páginas na internet”, serviço que também pode ser contratado pelas campanhas e é previsto entre as despesas eleitorais permitidas pela legislação.

O levantamento, no entanto, indica que o volume efetivamente destinado à publicidade nas plataformas da Meta pode ser maior do que o registrado diretamente no CNPJ da empresa. Isso porque parte dos pagamentos pode ser processada por instituições intermediárias, que também aparecem nas prestações de contas.

Gastos cresceram nas últimas eleições

O impulsionamento pago de conteúdos político-eleitorais passou a ser permitido no Brasil nas eleições de 2018, após a minirreforma eleitoral promovida pela Lei nº 13.488/2017, que alterou a Lei das Eleições.

Desde então, os valores registrados diretamente no CNPJ da Facebook Serviços Online do Brasil Ltda. cresceram significativamente, segundo levantamento feito pela reportagem a partir dos dados do TSE.

Nas eleições gerais de 2018, foram R$ 23,2 milhões. Dois anos depois, nas eleições municipais de 2020, o valor chegou a R$ 35,5 milhões. Em 2022, saltou para R$ 129,7 milhões e, nas eleições municipais de 2024, alcançou R$ 201,5 milhões.

Entre 2018 e 2024, portanto, o valor registrado diretamente no CNPJ da empresa cresceu 8,7 vezes.

O avanço acompanha o aumento do peso do impulsionamento nas despesas eleitorais. Estudo da FGV Comunicação Rio aponta que esse tipo de gasto correspondia a 2,6% das despesas totais das campanhas em 2018, 3,5% em 2020 e 6% em 2022, segundo dados do TSE.

Nas eleições municipais de 2024, a FGV apontou ainda mais de R$ 194 milhões gastos em impulsionamento nas plataformas da Meta durante o primeiro turno.

A concentração desse mercado nas mãos da Meta foi reforçada pela saída do Google da publicidade político-eleitoral no Brasil. Desde 2024, a empresa proíbe em suas plataformas anúncios sobre eleições, partidos políticos, federações e coligações, cargos eletivos, propostas de governo e outros conteúdos relacionados ao processo eleitoral.

Valor destinado à Meta pode ser ainda maior

Os valores registrados diretamente no CNPJ da Meta, porém, não necessariamente representam todo o dinheiro gasto pelas campanhas em anúncios no Facebook e no Instagram.

Isso porque parte dos pagamentos pode ser processada por instituições intermediárias, como a Adyen e a dLocal, que também aparecem como fornecedoras nas prestações de contas.

Essas empresas atuam como processadoras de pagamentos: fazem a ponte financeira entre a campanha e a plataforma contratada, operando meios como boletos, Pix e cartões, sem necessariamente serem as fornecedoras finais do serviço de publicidade.

A relação entre essas intermediárias e os pagamentos à Meta não é nova e já aparece documentada em prestações de contas e decisões da Justiça Eleitoral de diferentes eleições.

Em 2020, por exemplo, em casos analisados pela reportagem, extratos bancários registravam pagamentos com a descrição “Facebook processado por Adyen”, enquanto boletos pagos à dLocal traziam o nome do Facebook. Em outro processo, o Tribunal Regional Eleitoral do Rio Grande do Sul (TRE-RS) descreveu a dLocal como intermediadora de pagamentos para o Facebook.

Naquele pleito, R$ 37,4 milhões foram registrados nas prestações de contas em nome da dLocal, R$ 35,5 milhões diretamente no CNPJ do Facebook e R$ 23 milhões em nome da Adyen. Somados, os três CNPJs chegaram a cerca de R$ 96 milhões em valores nominais.

Do total registrado em nome da dLocal naquele ano, 96,16% foram classificados como impulsionamento de conteúdo. No caso da Adyen, a proporção foi de 96,97%.

Corrigido aproximadamente pela inflação até agosto de 2024, o montante de R$ 96 milhões se aproxima dos R$ 124 milhões apontados por estudo da FGV Comunicação Rio como o total gasto com impulsionamento na Meta nas eleições de 2020.

Apesar de a FGV não detalhar quais CNPJs foram considerados para chegar ao montante, a proximidade entre os valores é compatível com o modelo de pagamentos documentado naquele pleito, em que dLocal e Adyen processavam transações relacionadas a anúncios do Facebook.

Intermediárias seguem no fluxo de pagamentos em 2026

Neste ano, o TSE regulamentou de forma mais explícita essa modalidade de pagamento.

A Resolução nº 23.607, alterada pela Resolução nº 23.752/2026, estabelece que o boleto pode ser emitido pelo próprio fornecedor ou por uma instituição de pagamento contratada, desde que o documento informe o beneficiário final dos recursos e a atividade contratada.

Nos dados das eleições de 2026, a dLocal Brasil Instituição de Pagamento S.A. já soma R$ 11.910.686,26 em despesas registradas pelas campanhas. Desse total, R$ 11.555.937,56, ou 97%, foram classificados como “Despesa com Impulsionamento de Conteúdos”.

Os cerca de 3% restantes aparecem em rubricas como “criação e inclusão de páginas na internet”, “serviços prestados por terceiros” e “despesas com hospedagem”.

Assim, os R$ 20,9 milhões registrados diretamente no CNPJ da Meta até o momento devem ser considerados um piso do valor de fato recebido pela empresa, já que parte dos pagamentos pode aparecer em nome de intermediárias financeiras. Embora essa intermediação seja prevista na legislação eleitoral, o modelo pode fazer com que os dados subestimem o montante efetivamente destinado à plataforma.

O crescimento do impulsionamento também mostra como uma parcela cada vez maior dos recursos movimentados nas eleições brasileiras tem como destino empresas de tecnologia.

Com as redes sociais consolidadas como um dos principais espaços de disputa eleitoral, milhões de reais gastos por candidatos e partidos passam diretamente para os cofres de big techs como a Meta.

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