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Justiça de SP nega pedido de Willer Tomaz para bloquear bens da Blaze

Advogado alega vício em jogos e cobra R$ 163 milhões da plataforma de apostas; TJSP nega por considerar risco de calote "meras conjecturas"

Advogado Willer Tomaz (Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado)

A Justiça de São Paulo negou o pedido do advogado Willer Tomaz para bloquear bens e ativos da Foggo Entertainment, operadora da plataforma de apostas Blaze. A decisão é do juiz Guilherme Madeira Dezem, da 44ª Vara Cível do Foro Central, e foi assinada na terça-feira (29).

Segundo o colunista Demétrio Vecchioli, do Metrópoles, o bloqueio pedido era de R$ 145 milhões. O requerimento foi apresentado pelo ex-ministro da Justiça Eugênio Aragão, advogado e sócio de Willer.

A ação foi distribuída em 2 de agosto. Willer pede a anulação das apostas, a devolução dos valores e indenização por danos materiais e morais. Afirma ter sido diagnosticado com ludopatia, o transtorno do jogo patológico, e diz que a plataforma sabia do diagnóstico e continuou permitindo que ele apostasse.

Segundo o Metrópoles, o advogado movimentou cerca de R$ 5 bilhões em apostas na Blaze em 2025 e acumulou prejuízo de R$ 163 milhões.

Pedido veio um dia depois da MP das bets

O pedido de bloqueio foi feito em 26 de setembro, segundo o Metrópoles. Na véspera, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva havia assinado a medida provisória que proíbe a exploração, a oferta e a publicidade de apostas online no país.

Pela MP, os depósitos nas plataformas ficaram suspensos imediatamente, os apostadores têm até as 23h59 de 5 de outubro para sacar o saldo e os sites saem do ar no dia 6. O Congresso tem até 120 dias para analisar o texto.

Willer argumentou que esse cenário poderia descapitalizar a Blaze e impedir o pagamento de uma eventual condenação. O juiz rejeitou a tese.

Segundo a decisão, o pedido se baseou em “meras conjecturas acerca do cenário econômico e institucional do setor de apostas”. O magistrado escreveu que a tramitação de medidas provisórias envolve “eventos futuros e essencialmente incertos”, que dependem do Congresso, e que não há nos autos “o menor indício material” de que a empresa esteja escondendo patrimônio ou desviando receitas.

O juiz também destacou que a Blaze vinha cumprindo as ordens judiciais anteriores.

Foi a segunda vez que o magistrado negou o bloqueio de bens. Willer já havia feito o pedido de forma subsidiária na petição inicial. Na ocasião, o juiz decidiu aguardar o contraditório antes de analisar a medida.

Liminar no dia da operação da PF

Em 4 de agosto, o juiz concedeu parte da liminar pedida por Willer. No mesmo dia, o advogado foi alvo de uma operação da Polícia Federal relacionada às investigações sobre fraudes em benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

Na liminar, o magistrado considerou que Willer demonstrou “com suficiente probabilidade” o diagnóstico de ludopatia e os pedidos de exclusão da conta feitos à plataforma.

A Blaze foi obrigada a bloquear a conta e o CPF dele em todas as marcas que opera, incluindo a Jonbet, e a interromper o envio de publicidade, bônus e contatos de “gerente VIP“. A empresa também teve de preservar e apresentar todo o histórico de apostas, depósitos e saques.

Vício só aparece na ação, diz reportagem

A reportagem do Metrópoles contesta a versão apresentada por Willer sobre o vício em apostas. Segundo a coluna, o tema não aparece nas conversas do advogado com o atendimento VIP da Blaze entre janeiro e março de 2026.

Nas mensagens, ele reclamava da demora nos saques e pedia limites maiores. Antes de recorrer à Justiça, ainda segundo o Metrópoles, Willer propôs um acordo para que a Blaze devolvesse 70% das perdas. O argumento apresentado naquele momento estaria relacionado às práticas da plataforma, sem menção à ludopatia.

A coluna informa também que o laudo psiquiátrico anexado ao processo é de julho, pouco antes do ajuizamento da ação, e afirma que Willer estava “iniciando tratamento”. Os prints dos pedidos de bloqueio enviados à Blaze não têm data e os autos não registram inscrição dele no sistema federal de autoexclusão de apostadores.

Criptomoedas e reconhecimento facial

Em outra coluna, Vecchioli revelou conversas que o próprio Willer anexou ao processo em ata notarial. Nelas, um funcionário da Blaze sugere depósitos e saques em criptomoedas para contornar limites, e o advogado responde: “Nós podemos tentar. Você me guia?”.

A plataforma também teria dispensado Willer do reconhecimento facial nos saques, exigência prevista na regulamentação federal. Um resgate de R$ 6 milhões teria sido dividido em 400 transferências Pix de R$ 15 mil.

Segundo o Metrópoles, a Blaze não tratou desses pontos em sua defesa.

Segunda conta

Em setembro, Willer acusou a Blaze de descumprir a liminar ao enviar dois SMS publicitários ao celular dele. A empresa reconheceu que as mensagens saíram de sua base de dados, mas afirmou que foram direcionadas a um cadastro diferente daquele informado no processo, em uma campanha automática anterior à ordem judicial.

O juiz aceitou a explicação e negou a aplicação de multa. Segundo a decisão, as mensagens chegaram a “uma segunda conta/perfil do autor, acessada por meio de e-mail diverso daquele informado nos autos”.

O magistrado incluiu esse perfil na proibição de contato.

Relações com Flávio e investigações da PF

Willer Tomaz também é um dos cotistas da estrutura de propriedade compartilhada do jato Legacy 650, de prefixo PP-NLR, usado por Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em uma viagem entre a Flórida e Brasília em janeiro de 2025.

Segundo o próprio advogado, uma empresa ligada a ele detém uma das três cotas da aeronave desde 2023 e foi ele quem custeou o voo. Flávio viajou acompanhado da mulher, Fernanda Bolsonaro, das filhas e de Willer.

Outra participação na estrutura do avião passou a ser ligada à Prime You, empresa da qual o ex-banqueiro Daniel Vorcaro foi sócio entre 2021 e setembro de 2025. Willer afirma que não conhece Vorcaro e que a entrada da Prime You na estrutura ocorreu sem seu conhecimento ou anuência.

+ Flávio Bolsonaro viajou dos EUA ao Brasil em jato ligado a Vorcaro

O advogado também está na mira da Polícia Federal em uma investigação relacionada ao esquema bilionário de fraudes em benefícios do INSS. Em agosto, foi alvo de busca e apreensão em uma fase da Operação Sem Desconto que apura suspeitas de lavagem de dinheiro.

Em relatório da investigação, a PF descreveu a estrutura empresarial ligada a Willer como um “verdadeiro hub financeiro, patrimonial e logístico” supostamente utilizado por investigados no esquema.

Willer já havia sido preso preventivamente em maio de 2017 durante a Operação Patmos, deflagrada pela Polícia Federal a partir de desdobramentos das investigações da Lava Jato.

Na ocasião, ele e o procurador da República Ângelo Goulart Vilela foram investigados por suspeitas relacionadas ao vazamento de informações de investigações. A prisão de Willer foi posteriormente revogada pela Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal.

Fim do sigilo

O processo contra a Blaze corria em segredo de justiça desde agosto. Na decisão de terça-feira, o juiz entendeu que o caso trata de uma relação de consumo e que a existência de dados médicos ou financeiros não justifica o sigilo integral dos autos.

Willer terá cinco dias para indicar quais documentos considera que devem permanecer restritos.

O magistrado também dispensou a participação do Ministério Público no processo e deu 15 dias para que as partes indiquem as provas que pretendem produzir.

O Portal Tela procurou Willer Tomaz, o advogado Eugênio Aragão e a Blaze, mas não obteve resposta até o fechamento desta matéria. O espaço segue aberto para manifestações.

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