O ex-presidente do Banco de Brasília (BRB) Paulo Henrique Costa afirmou, em depoimento à Polícia Federal, que o ex-governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), pediu que ele estruturasse uma venda do banco ao Banco Master, de Daniel Vorcaro. Segundo Costa, a conversa ocorreu durante um jantar na casa do empresário, em 24 de setembro de 2024.
No depoimento, colhido no último dia 15, Costa relatou que recebeu uma mensagem convocando-o para o encontro, organizado pelo gabinete do ex-governador. Ele disse que estava na Bahia e chegou a considerar não comparecer, mas decidiu ir, embora pretendesse ficar apenas 15 minutos.
Ao descrever o jantar, o ex-presidente do BRB afirmou que Ibaneis o apresentou a Vorcaro e, em seguida, ouviu a proposta para estruturar a venda. “Paulo, estruture uma venda do BRB para o Master”, relatou Costa ao reproduzir a fala atribuída ao ex-governador. O depoimento embasou o pedido de indiciamento dele, de Vorcaro e outras 13 pessoas no relatório preliminar sobre o caso.
Durante o jantar, segundo Paulo Henrique Costa, Vorcaro afirmou que precisava de um acordo de acionistas que garantisse o controle do BRB, por se tratar de um banco público sujeito a mudanças de governo.
🔎 A investigação apura suspeitas de fraudes na venda de carteiras de crédito do Banco Master ao BRB e a atuação de executivos e agentes públicos nas negociações entre as duas instituições. Vorcaro era o controlador do Master, enquanto Paulo Henrique presidia o BRB durante parte das tratativas. Ibaneis, então governador do DF, também é citado pela PF por sua participação na articulação do negócio. Segundo os investigadores, as operações envolveram bilhões de reais e estruturas financeiras que teriam sido usadas para ocultar a participação do Master na estrutura acionária do banco público. O caso também investiga a tentativa de compra do Master pelo BRB, barrada pelo Banco Central em 2025. 🔍
Participação do Iprev
Segundo Costa, ainda no jantar, Ibaneis mencionou a intenção de vender as ações do Instituto de Previdência dos Servidores do Distrito Federal (Iprev) no BRB. O ex-presidente afirmou que o instituto detinha, à época, cerca de 16,5% do banco.
Costa disse ter ficado surpreso com a proposta, porque, segundo ele, a venda do BRB era uma possibilidade que a instituição vinha evitando. No depoimento, ressaltou que a decisão de vender ações caberia ao acionista, e não ao presidente do banco.
O ex-presidente também afirmou que procurou argumentar contra a operação. Em sua avaliação, a venda poderia representar uma forma indireta de privatização do BRB.
“No outro dia 7h30 da manhã eu mando mensagem. Quero conversar. Comecei a dar andamento mas quero conversar. Depois essa reunião é marcada no gabinete do governador, eu vou ao governador e digo: ‘Chefe, não concordo com essa operação. A gente prometeu que não ia privatizar o banco, o banco tá dando um resultado extraordinário, o banco é chave pro Distrito Federal, a gente opera todos os programas sociais, a gente fez o plano de saúde dos servidores, a gente deu naming rights da Arena, a gente tá reformando o autódromo, o banco é o coração de Brasília”, disse.
Mais adiante no depoimento, Costa disse que as tratativas passaram a envolver uma operação inversa: a compra do Master pelo banco público. A ideia foi tratada em uma reunião realizada na Suíça.
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Negociação com o Banco Master
Costa explicou que a aproximação com o Master também envolvia uma possível operação de fusão e aquisição, conhecida como M&A. Segundo ele, a proposta era apresentada como uma oportunidade para ampliar a atuação do BRB em áreas nas quais o banco tinha limitações, como a presença no mercado paulista, operações internacionais, câmbio e tecnologia.
Ele sustentou que o desenho da operação previa manter o BRB no controle e permitir a seleção dos ativos e passivos que seriam incorporados, com auditorias adicionais. Costa afirmou que a negociação não foi concluída e contestou a interpretação de que o negócio não avançou apenas por uma decisão do Banco Central.
As negociações para a compra do Banco Master pelo BRB foram anunciadas em março de 2025, mas a operação foi vetada pelo Banco Central em 3 de setembro. Em novembro, o Master, controlado por Daniel Vorcaro, foi liquidado, e o banqueiro acabou preso ao tentar deixar o país pelo Aeroporto de Guarulhos. Paulo Henrique Costa, por sua vez, foi detido em abril deste ano.
Procurada pelo Portal Tela, a defesa de Ibaneis ainda não se manifestou.
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