O astrofísico americano Adam Frank, docente da Universidade de Rochester, lidera pesquisas sobre tecnoassinaturas no Universo e participa de discussões sobre financiamento à ciência, IA e mudança climática. A entrevista integra a programação do São Paulo Innovation Week, que ocorre de 12 a 15 de maio em São Paulo, na Mercado Livre Arena Pacaembu e na FAAP. O evento é realizado pelo Estadão, em parceria com a Base Eventos.
Frank explica que a busca por sinais de vida, incluindo vida tecnológica inteligente, pode avançar nas próximas décadas. Ele aponta que jovens de hoje devem ver respostas surgirem com o aumento da capacidade de observar planetas distantes e analisar suas atmosferas.
O pesquisador descreve a evolução da chamada revolução dos exoplanetas, iniciada em 1995, quando começaram a descobrir planetas orbitando outras estrelas. Hoje, ele afirma que quase toda estrela tem ao menos uma família de exoplanetas, e que a observação de sinais indiretos de vida é uma área recente, ainda em desenvolvimento.
Como se detectam evidências de vida
Para investigar planetas distantes, a equipe analisa a luz que atravessa a atmosfera de um mundo quando ele passa entre a estrela e a Terra. A luz carrega impressões químicas que indicam a composição atmosférica e a possível presença de biosignaturas ou tecnoassinaturas.
Frank liderou o primeiro grupo a receber financiamento da Nasa para buscar tecnoassinaturas. Ele ressalta que a busca por vida inteligente é uma parte central de seu trabalho, sem depender de fotografias diretas dos planetas.
Financiamento público e ciência
O astrofísico afirma que o financiamento público é essencial para a inovação, mas aponta que a ciência nos EUA vive pressão orçamentária. Segundo ele, a liderança científica depende do apoio à pesquisa básica, que gera impactos econômicos e tecnológicos no longo prazo.
Ele compara ciclos históricos de liderança científica com mudanças de financiamento, destacando que a atual tendência pode comprometer a posição de seu país na fronteira da ciência, caso não haja recuperação de investimentos.
Perspectivas para o Brasil e cooperação internacional
Em relação ao Brasil, Frank diz que a ciência básica gera retorno econômico expressivo, citando exemplos como a origem da internet a partir de pesquisas astronômicas. Ele defende parcerias internacionais como caminho para fortalecer ciência e inovação em países com orçamento restrito.
O pesquisador cita colaborações com cientistas brasileiros e aponta que o Brasil tem potencial para se tornar uma potência científica neste século, desde que fortaleça acordos internacionais e investimentos em pesquisa.
IA, sociedade e astrobiologia
Na obra O Ponto Cego, escrita com Marcelo Gleiser e Evan Thompson, Frank questiona a integração entre ciência e experiência humana. Em relação à IA, ele destaca riscos de uso excessivo sem testes adequados, mas afirma que sistemas atuais não superam a humanidade.
Ele vê a tecnologia como ferramenta, não salvadora definitiva. O debate citado no livro defende que cidadãos devem influenciar o desenho da IA, definindo o que desejam que a tecnologia realize ou não.
Clima, biosfera e vida no Universo
Frank comenta que a astrobiologia oferece uma perspectiva sobre a crise climática: não é apenas uma missão de salvar a Terra, mas de entender a sobrevivência de civilizações que respeitem as leis físicas do planeta. Segundo ele, a mudança climática é um processo planetário real que exige ação e mudanças de comportamento.
Por fim, o astrofísico reforça que a inovação tecnológica pode ajudar, mas sozinho não resolve a situação. É necessário um conjunto de mudanças sistêmicas para que a biosfera seja tratada como parceira estratégica da humanidade.
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