Em 2004, pesquisadores do Ipam iniciaram um estudo na Estação Tanguro, em Querência (MT), acompanhando queimadas na Amazônia. O objetivo era testar se o bioma poderia se manter como floresta ou evoluir para savana, conforme modelos climáticos.
O trabalho envolveu queimas controladas em três parcelas: uma sem fogo, outra queimada anualmente entre 2004 e 2010 e uma terceira queimada a cada três anos. A partir de 2010, as queimadas passaram a ser monitoradas apenas para avaliar recuperação.
Resultados publicados no Proceedings of the National Academy of Sciences apontam que incêndios frequentes reduzem a biodiversidade e promovem a homogeneização ecológica, sobretudo nas bordas da floresta. Não houve savanização observada.
A maior presença de espécies pioneiras e de generalistas apareceu em zonas de borda, com mais de 70% de pioneiras em áreas impactadas e até 93% de plantas generalistas nas bordas, indicando maior adaptação ao fogo.
Em contrapartida, o interior da Amazônia manteve a biodiversidade relativamente estável. Ainda assim, a borda sul, ligada ao arco do desmatamento, continua mais seca e sujeita a incêndios mais severos.
Os resultados também mostraram que o fogo em intervalos maiores pode gerar impactos mais intensos na mortalidade de árvores, devido ao acúmulo de biomassa e à dinâmica de gramíneas invasoras, associadas a ciclos de novos incêndios.
Gramíneas exóticas surgiram nas bordas, favorecendo a propagação de incêndios e dificultando a regeneração de espécies típicas da floresta. Com o tempo, a sombra das copas reduziu a presença dessas gramíneas, porém algumas áreas permaneceram em estágio de recuperação.
A equipe ressalta que a pesquisa é pioneira por acompanhar efeitos do fogo de longo prazo no chão da floresta, superando limitações do sensoriamento remoto. Erika Berenguer destaca a importância de financiamento para estudos prolongados como esse.
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