O estudo publicado na The Quarterly Review of Biology aponta que o consumo frequente de carne vermelha e de carnes processadas pode aumentar o risco de doenças. A pesquisa avaliou cerca de 3 milhões de anos da relação entre hominídeos e dieta animal, com evidências arqueológicas e moleculares.
Autores destacam que os primeiros hominídeos já consumiam carne como complemento à dieta vegetal, muito antes do gênero Homo. A carne servia como estratégia alimentar ampla, não como refeição principal, para sustentar sobrevivência e desenvolvimento cerebral.
Ao contrário da ideia de caçadores que buscavam grandes bifes, os pesquisadores sugerem valorização de partes mais calóricas, como medula, órgãos e tecidos ricos em lipídios, essenciais para o cérebro infantil. A proteína, por si só, não explicaria a expansão cerebral.
Mudança de dieta e impactos
A pesquisa indica que a relação com carne mudou com a expansão da agricultura, entre 10 mil e 12 mil anos atrás, quando a diversidade alimentar diminuiu. Dietas baseadas em cereais contribuíram para deficiência de ferro em algumas sociedades.
A produção industrial de alimentos elevou a disponibilidade de carne vermelha, consolidando seu papel nas refeições. Hoje, a indústria global movimenta cerca de US$ 1,3 trilhão e cresce especialmente em países de baixa e média renda.
Estudos epidemiológicos associam consumo frequente de carne vermelha e processada a maiores riscos de doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2 e câncer colorretal. A IARC classifica carnes processadas como carcinogênicas Grupo 1; carnes vermelhas, Grupo 2A.
Perspectivas de saúde e ambiente
O estudo ressalta uma molécula chamada Neu5Gc, presente em carnes vermelhas atuais, mesmo após a perda humana de sua produção. Sua ingestão pode promover inflamação crônica e aumentar riscos de aterosclerose, câncer colorretal e declínio cognitivo.
A indústria pecuária é apontada como responsável por cerca de 15% das emissões globais de gases de efeito estufa, além de desmatamento, uso de água e resistência a antibióticos. Os autores enfatizam que não há recomendação de eliminação total da carne.
Conclui que entender a história evolutiva da alimentação ajuda a explicar por que um alimento essencial no passado pode ter impactos negativos quando consumido em excesso hoje. A análise não substitui orientações médicas, apenas contextualiza padrões atuais.
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