Mais de um terço da população em situação de rua de Ribeirão Preto nunca fez exame de vista, aponta estudo da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP. A pesquisa mostrou que há barreiras que vão além da oferta de serviços, incluindo documentação, acesso, estigma e prioridades de sobrevivência. O trabalho adaptou métodos para alcançar esse grupo historicamente invisível nas estatísticas.
O estudo, batizado Hopes (Homelessness in Ribeirão Preto Eye Study), avaliou saúde ocular de pessoas em situação de rua na cidade. Segundo o principal autor, o professor João Marcello Fortes Furtado, pesquisas tradicionais dependem de domicílios e endereços fixos, o que exclui esse público.
Exames oftalmológicos em abrigos e instituições parceiras
Ao todo, 518 pessoas foram convidadas, 491 aceitaram e 461 concluíram as etapas. Os exames foram realizados em abrigos, centros de apoio municipais e instituições parceiras, sem coletas diretas em ruas. Equipamentos portáteis permitiram avaliação visual, refração, pressão intraocular, biomicroscopia, fundo de olho e retina.
A logística envolveu visitas repetidas e coordenação com equipes locais, mantendo a qualidade técnica sem depender de retorno posterior. A entrega de óculos gratuitos ocorreu no ato, para quem precisava. Casos graves foram encaminhados ao SUS.
Vulnerabilidade social e acesso à saúde ocular
A amostra foi majoritariamente masculina (84,8%) e entre 40 e 59 anos (51,0%). Quase metade estava em rua há até um ano (47,5%). A escolaridade TVD foi de até oito anos para 55,7%. Ter feito exame oftalmológico já havia acontecido para 33,8%, e 33,2% citaram o último exame há mais de cinco anos.
Mesmo com infraestrutura na cidade, o acesso permaneceu limitado. A maioria reconheceu que a simples existência de serviços não garante atendimento efetivo para quem vive em vulnerabilidade. O estudo aponta ainda que a mobilidade alta reduz a continuidade do cuidado, tornando a entrega imediata de óculos mais eficaz do que modelos que requerem reencontro.
Resultados e perspectivas
O estudo sugere que ampliar o acesso à saúde ocular envolve mais do que oferecer consultas. Barreiras como falta de documentos, estigma e dificuldade de navegação reduzem a prevenção, o diagnóstico e o tratamento em tempo oportuno. proximidade de serviços não equivale a acesso efetivo.
O estudo abre caminho para novas análises sobre deficiência visual, cegueira, fatores de risco e qualidade de vida relacionada à visão nessa população. Dados podem contribuir para indicadores internacionais da OMS sobre cobertura de serviços oftalmológicos e orientar estratégias de melhoria.
Fontes e contatos
A pesquisa The homelessness in Ribeirão Preto Eye Study (HOPES) está publicada na ScienceDirect. Informações adicionais podem ser obtidas com João Marcello Furtado pelo email furtadojm@fmrp.usp.br.
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