Brasil precisa de um divisor de águas contra o câncer
Sem investimento maciço em inovação científica, prevenção e diagnóstico precoce, a realidade da doença no país tende a permanecer limitada ao manejo da criticidade. A afirmação acompanha números e evidências apresentadas recentemente em um dos maiores eventos médicos do mundo.
Um estudo apresentado na sessão plenária da Asco, em Chicago, ganhou destaque entre milhares de participantes. A pesquisa, em fase final, aponta para um novo tratamento para câncer de pâncreas que atinge proteínas previamente inacessíveis a medicamentos. O resultado reduz o risco de morte em cerca de 60% em pacientes com doença metastática e dobra a sobrevida mediana, frente à melhor quimioterapia disponível.
Igor Morbeck, oncologista que participou da plenária, classificou o estudo como um divisor de águas, ainda que reconheça limitações no acesso ao novo tratamento. Não há informações sobre custo nem quando o medicamento deve chegar ao mercado. Nos EUA, a droga já entra na lista de aprovação acelerada, com previsões de expansão para outras jurisdições ainda incertas.
Tratamentos que atacam as mesmas proteínas, porém de forma mais restrita, podem chegar a cerca de 90 mil reais por mês no Brasil. Em contrapartida, o gasto médio anual por paciente oncológico no SUS fica em torno de 9 mil reais, o que complica a viabilização de novas terapias no país.
Quando se observa o panorama nacional, surgem números alarmantes sobre o câncer. São quase 781 mil novos casos por ano no Brasil, equivalentes a cerca de 90 diagnósticos por hora. Mais de 60% dos casos já aparecem em estágio avançado, reduzindo as chances de desfecho positivo.
De cada 10 mortes por tumor maligno, quatro poderiam ser evitadas com mudanças de hábitos e com maior acesso à assistência médica. O cenário evidencia um grande desafio de saúde pública e a necessidade de mudanças estruturais para ampliar prevenção, diagnóstico precoce e inovação.
A discussão sobre avanços terapêuticos segue no âmbito científico e clínico, mas as dificuldades de implementação no Brasil permanecem. Sem investimentos consistentes, novas descobertas não costumam traduzir-se em ganhos imediatos para a população. Equipes de saúde, pacientes e famílias continuam lidando com a gravidade da doença.
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