Uma caverna no interior do Paraná funciona como um arquivo climático que permite reconstruir, ao longo de 7,5 mil anos, a história das chuvas extremas no Sul do Brasil. Pesquisadores identificaram que o século 20 registrou uma das maiores frequências de eventos nesse período. O estudo aponta a Antártida e o fenômeno El Niño como fatores relevantes.
Os dados foram obtidos a partir de espeleotemas, estalagmites formadas pela deposição de sedimentos durante enchentes. Os cientistas analisaram camadas finas preservadas no interior da Caverna do Malfazido, em Doutor Ulysses, região metropolitana de Curitiba. O crescimento rápido das estalagmites facilita essa linha temporal detalhada.
Entre 3 mil e 2 mil anos atrás, houve período com menos chuvas extremas. Já entre 7,5 mil e 4 mil anos atrás, e no último milênio, a frequência foi maior, destacando o século 20. O registro natural se confirma pela correlação com eventos recentes observados na região.
O que se descobriu
A pesquisa indica que variações no gradiente térmico entre altas e médias latitudes influenciam a circulação atmosférica. Assim, frentes frias formadas e o transporte de umidade da Amazônia favoreceriam eventos de chuva extrema no Sul. O estudo conecta essas oscilações à Antártida Ocidental.
Outra linha de avaliação associa a frequência de chuvas intensas a El Niño, que altera ventos, calor e umidade em escala global. A relação com episódios moderados ou fortes do fenômeno foi observada ao longo de milênios.
Implicações atuais
Os pesquisadores destacam a relevância do cenário de El Niño moderado a forte para os próximos meses. A Organização Meteorológica Mundial reforça a probabilidade de intensificação do evento, o que pode impactar o Brasil com chuvas fortes e desastres hidrogeológicos em parte do território.
O Cemaden emitiu nota técnica com alertas para a região centro-sul, enquanto regiões do restante do país podem enfrentar seca. Os resultados, publicados em abril na revista Communications Earth & Environment, reforçam a necessidade de estratégias de adaptação.
Participação e método
O trabalho contou com a participação do geólogo Julio Cauhy, autor principal, que realizou parte da pesquisa no Instituto Max Planck de Química e na Universidade de Mainz, na Alemanha. A investigação teve apoio de docentes da USP e do IGc-USP, vinculados ao Projeto Temático Pire, financiado pela FAPESP.
A coleta de dados ocorreu desde 2019 na Caverna do Malfazido, cuja configuração natural permite o acúmulo de sedimentos finos sobre as estalagmites durante enchentes prolongadas. A datação isotópica das camadas confirmou a continuidade temporal do registro.
Entre na conversa da comunidade