Nações ao redor do mundo reagiram, a favor e contra, ao pedido de freio no desenvolvimento de modelos de inteligência artificial após declarações de Dario Amodei, presidente-executivo da Anthropic, dona do modelo Claude. O CEO fez uma publicação no X no último sábado (12), pedindo uma pausa no avanço das ferramentas para que possam ser mais bem compreendidas e causem menos danos.
O presidente da Anthropic recebeu o apoio de outros grandes nomes do setor, como Elon Musk, responsável pela xAI, e Sam Altman, CEO da OpenAI, criadora do ChatGPT. A manifestação foi vista de forma negativa por Donald Trump, que afirmou nesta segunda-feira (14) que “há uma conspiração doentia em andamento contra a IA e os Data Centers”.
+ Trump diz que há “conspiração doentia” contra IA e centros de dados
China se divide entre cautela com IA e crítica aos EUA
A China, principal rival dos Estados Unidos no desenvolvimento tecnológico, foi um dos países que mais repercutiu o debate sobre a IA nos últimos dias. Nesta segunda-feira, o chefe da inteligência chinesa alertou que a tecnologia representa uma ameaça à segurança nacional do país, pois potências estrangeiras poderiam usá-la para minar a ordem social.
+ Ações de IA caem após CEOs pedirem freio no desenvolvimento da ferramenta
“Forças hostis” abusam de tecnologias generativas de IA para “fabricar rumores políticos e espalhar informações prejudiciais”, escreveu o ministro da Segurança do Estado, Chen Yixin, em um artigo publicado online no domingo.
“Elas estão travando guerras de opinião pública e guerras cognitivas contra a China, ameaçando diretamente nossa segurança política, institucional e ideológica”, afirmou.
Por outro lado, o jornal estatal chinês Global Times tratou o texto de Amodei como uma “tática de Guerra Fria”. Segundo o veículo, a verdadeira intenção do artigo é tentar conter o desenvolvimento da IA na China por meio de barreiras tecnológicas e monopólios regulatórios, manter a hegemonia de Washington em tecnologias de ponta e excluir o país asiático do sistema global de governança da IA.
“Essa ‘Guerra Fria silenciosa da IA’ é hipócrita e míope”, afirmou o jornal, acrescentando que excluir a China da inovação global em IA “aumentaria significativamente os custos de tentativa e erro e os riscos de perda de controle no desenvolvimento global da IA”.
+ China rejeita acusação dos EUA de roubo de capacidades de IA
O líder chinês, Xi Jinping, tem um encontro marcado com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em Washington, neste mês de setembro, para uma reunião focada na governança e na segurança da IA.
Europeus debatem sobre segurança na IA
Diversos países da Europa também se manifestaram após as declarações. O diretor do grupo francês de defesa e tecnologia Thales pediu nesta segunda-feira que os governos assumam suas responsabilidades na regulamentação da inteligência artificial.
“Existem meios, do ponto de vista técnico, para manter esse tipo de tecnologia sob controle, mas não é suficiente”, declarou o diretor-geral da empresa, Patrice Caine, durante uma conferência tecnológica do grupo em Londres. “Precisamos de marcos regulatórios, e isso claramente corresponde, em termos de responsabilidade, aos governos”, acrescentou, lembrando que a Thales pesquisa a IA há décadas.
Já a Alemanha seguiu na contramão das propostas de “frear” a IA ao afirmar, também nesta segunda-feira, que interromper o desenvolvimento de sistemas de inteligência artificial não é uma “opção viável” para a Europa.
“Não consideramos a interrupção do desenvolvimento uma opção viável para a Europa”, disse um porta-voz do Ministério de Assuntos Digitais da Alemanha, acrescentando que o fortalecimento da soberania digital da Europa exige mais desenvolvimento e inovação em IA.
Ao mesmo tempo, Berlim afirmou que acompanha de perto os avanços globais da tecnologia e leva a sério as advertências públicas dos principais desenvolvedores.
+ UE cobra controle de modelos de IA após invasões da OpenAI
O ministério afirmou que sistemas de IA capazes de sair de ambientes de teste e acessar outros sistemas por conta própria representariam “um cenário de ameaça totalmente novo”, exigindo uma nova resposta política.
Na Espanha, o ministro da Transformação Digital, Oscar López, disse que há um debate crescente sobre a necessidade de um acordo internacional para gerenciar os riscos da IA, comparando algumas propostas aos acordos de não proliferação nuclear.
“As vozes que ouço atualmente parecem estar buscando algum acordo internacional que nos permita, digamos, limitar os riscos da inteligência artificial”, disse López à emissora estatal TVE.
López afirmou que a IA oferece enormes oportunidades, incluindo a descoberta de novos medicamentos e o aprimoramento de tratamentos, mas também apresenta riscos significativos em áreas como finanças e segurança cibernética.
+ Congresso dos EUA pede regras após alerta de pesquisador da Anthropic sobre IA
O Reino Unido acolheu com satisfação o debate entre as principais empresas de IA sobre os riscos apresentados por sistemas cada vez mais poderosos, mas afirmou que qualquer resposta regulatória futura deve ser baseada em evidências, e não em especulações.
“É positivo que as empresas que desenvolvem os sistemas de IA mais avançados estejam agora discutindo abertamente tanto os riscos quanto as oportunidades”, disse um porta-voz do primeiro-ministro britânico, Andy Burnham. “Mas não devemos presumir que a estrutura existente será sempre suficiente à medida que as capacidades da IA se desenvolvem”, acrescentou.
O Reino Unido, maior polo europeu de investimentos e startups de IA, tem favorecido, de modo geral, uma abordagem regulatória mais branda, alinhando-se mais aos EUA do que à União Europeia.
ONU alerta nações sobre perigos dos modelos
O alto comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Volker Türk, pediu uma “ação urgente” para regulamentar a inteligência artificial diante dos riscos sem precedentes apresentados pelos sistemas mais avançados.
“Estamos à beira de uma mudança irreversível, que afeta não apenas a nós, mas também as futuras gerações da humanidade”, disse Türk em um comunicado.
Volker Türk já havia alertado o Conselho de Direitos Humanos da ONU, em 7 de setembro, de que a inteligência artificial poderia representar um “risco existencial para a humanidade”.
+ Anthropic relata quarto incidente de segurança com o Claude
Nesta segunda-feira, ele fez um apelo aos principais desenvolvedores de IA, “localizados principalmente na República Popular da China e nos Estados Unidos, que tenham tanto a responsabilidade quanto a capacidade de agir imediatamente para reduzir os riscos“.
(Com informações da AFP e Reuters)
Entre na conversa da comunidade