O burnout atingiu Mari Camardelli, 40, educadora gaúcha, após uma segunda-feira aparentemente comum. Em 1º plano, perdeu a direção no carro e pediu ajuda a estranhos. Dois dias depois, não reconheceu rostos durante uma reunião online. A médica confirmou o esgotamento.
Ela relata que, antes, não dizia não e carregava várias tarefas ao mesmo tempo. Com o diagnóstico, passou a priorizar o cuidado próprio e a estabelecer limites, inclusive em horários para visitas de amigas.
A história de Mari evidencia a sobrecarga ligada ao trabalho invisível em casa, somando vida profissional e demandas domésticas. Ela atua como referência em grupos de apoio e lançou o livro sobre carga mental.
Sobrecarrega feminina
Dados da ONG Think Olga apontam que 45% das brasileiras têm diagnóstico de ansiedade ou depressão. A ansiedade atinge seis em cada 10 mulheres, segundo o estudo Esgotadas, de 2023.
A psicóloga Carla Antloga explica que a mulher, pela divisão de tarefas, fica sujeita a uma demanda cognitiva constante. Perguntas repetidas em casa podem ampliar a carga emocional.
A profissional ressalta que, na prática, o acúmulo de tarefas leva a um ciclo em que o mental e o emocional se alimentam, dificultando a recuperação de quem já está exausta.
Cuidado com os cuidados
Pesquisa feita pela Fundação Seade, em São Paulo, aponta que mulheres respondem por 90% dos cuidadores formais e informais. Em muitos lares, a tarefa de zelar pela família recai sobre elas, mantendo carga alta mesmo com a participação feminina no mercado de trabalho.
A ginecologista Fabiane Berta observa que a perimenopausa aumenta a sensação de cansaço. Em seu consultório, mais de 90% das pacientes relatam fadiga, exigindo avaliação integrada, não apenas orientação para dormir bem.
O debate também envolve o papel masculino nas tarefas domésticas. A cientista social Carmen Susana Tornquist cita entraves culturais que dificultam a equidade na divisão de responsabilidades.
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