O romance O Mar É Longe, do escritor paraense Airton Souza, ganhou fôlego após a morte do pai, em 2015. O tema central surgiu dois dias depois, quando ele sonhou com a frase que dá título ao livro.
A história envolve dois irmãos que fogem de um pai violento e homofóbico, em meio a uma região do interior do Pará. O contexto familiar é explorado a partir de uma tragédia que marca a memória do autor.
Contexto familiar e trajetória do autor
O pai, Raimundo Gonçalves, tinha 60 anos e era garimpeiro; a violência era frequente em casa, sobretudo quando bebia. Em Marabá, no interior do Pará, a família buscava o sonho do garimpo, tema do primeiro romance de Souza.
Em 2013, Júlio Cesar Souza, irmão de Airton, foi morto a tiros na cidade, sem esclarecimento até hoje. O escritor aponta a ausência de investigação efetiva e de responsabilização como falhas do Estado.
A morte de Júlio e a perda do filho marcaram profundamente a família: a mãe, Maria Barbosa, faleceu um mês depois, aos 51 anos. O impacto dessas perdas é refletido na obra e na visão do autor sobre violência e pobreza.
O Mar É Longe acompanha a marcha dos irmãos rumo ao mar, como fuga das agressões. O enredo começa na cidade de Rosário, às margens do rio Itaperucu, onde o pai tirava sustento com a pesca.
Ao longo da narrativa, o mar surge como promessa de refúgio. O romance é dedicado a pessoas LGBTQIA+ que enfrentam preconceito e violência no seio familiar, segundo a intenção do autor.
A pesquisa literária de Airton Souza
Desde a adolescência, Souza disputava espaço entre a literatura e a vida difícil, trabalhando como feirante, camelô e até operador do jogo do bicho. Só aos 30 anos ele começou a ler com mais afinco.
Formado em letras, com mestrado e doutorado, o escritor já atuou como professor da rede pública. Hoje coordena um programa de formação de professores em Itupiranga, cidade a cerca de 50 quilômetros de Marabá.
A biblioteca pessoal de Airton tem quase 10 mil volumes, adquiridos pela internet e em feiras literárias. O acervo é compartilhado com amigos e familiares, já que o acesso à leitura é limitado na região.
Para ele, a literatura funciona como antídoto contra a perversidade. A obra amplia o debate sobre pobreza, violência e aceitação, destacando a importância de ler para compreender realidades diversas.
Entre na conversa da comunidade