No segundo semestre deste ano, foram realizadas 1.391 operações de combate ao garimpo ilegal nas terras indígenas Yanomami, em Roraima. As ações ocorreram entre julho e outubro de 2026, resultando na inutilização de seis aeronaves, quatro apreensões de aviões e na destruição de 15 pistas de pouso clandestinas usadas para o transporte ilegal dos minerais.
Em solo, as equipes de combate desfizeram 67 acampamentos, 14 balsas e 15 embarcações, além de apreenderem aproximadamente 8,8 toneladas de cassiterita e 12 mil litros de diesel. Também foram apreendidos 92,8 quilos de mercúrio e 5.050 litros de gasolina. O prejuízo estimado à atividade ilegal no período foi de R$ 67 milhões.
Coordenadas pela Casa de Governo, vinculada à Casa Civil da Presidência da República, as ações alcançaram áreas de extração mineral, rotas de abastecimento e estruturas de apoio ao garimpo, dentro e no entorno da terra indígena. A estratégia aplicada durante quatro meses teve focos diferentes para cercar os garimpeiros.
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A primeira fase: foco em combater logística e transporte

Operação Xapiri Mebêngôkré, realizada em conjunto com a Polícia Federal e o Ibama (Foto: Acervo/Funai)
Em julho, a equipe da força operacional da Funai e as forças nacionais chegaram até a região do rio Uraricoera, onde funcionava o garimpo ilegal conhecido como João Doido. A princípio, os agentes fizeram a vistoria territorial por meios aéreos, terrestres e fluviais; o mapeamento localizou barracos, cozinhas, ferramentas, equipamentos elétricos e suprimentos utilizados pelos garimpeiros para executar o trabalho.
Na sequência, os militares do Comando Conjunto Catrimani II inutilizaram um avião Cessna 182 de Hélio no Alto Catrimani. A aeronave estava escondida na vegetação para manutenção, o que facilitou a identificação. Os militares do Comando Catrimani II contaram com o apoio dos fuzileiros navais da Marinha do Brasil para prosseguir com a operação pelas vias fluviais nos rios Branco, Uraricoera e Uraricaá. Lá, foram realizados bloqueios e patrulhamento fluvial e, no Furo Santa Rosa, com a lancha de combate Aruanã, eles chegaram até o garimpo Morena. O terceiro garimpo, localizado no rio Apiaú, foi interceptado pelas equipes da Funai, da Força Nacional e da Casa de Governo. O foco dessa ação foi deixar os equipamentos locais inutilizáveis; para isso, os agentes destruíram motores, bombas, mangueiras e caixas separadoras de minério.
Segunda fase: movimentação aérea, apreensão e inutilização de aeronaves e apreensão de combustíveis no entorno da terra indígena

Aeronave utilizada no transporte de combustível para o garimpo ilegal é inutilizada pelo Ibama na vicinal 8 do Apiaú, em Mucajaí, Roraima, durante operação coordenada pela Casa de Governo. Foto: Bruno Mancinelle/Casa de Governo.
Uma operação da Força Nacional em Mucajaí interceptou um Cessna 182F em uma estrada vicinal, cujos ocupantes fugiram com a aproximação dos agentes. Foram encontrados aproximadamente 600 litros de combustível de aviação, uma antena Starlink Mini, aparelhos de GPS, rádio de comunicação e outros equipamentos. Na região de Apiaú, também em Mucajaí, outra fiscalização encontrou 69 recipientes contendo 2.600 litros de diesel, 550 litros de gasolina e 300 litros de querosene de aviação. No local, também havia rádios, peças de aeronaves, ferramentas e aproximadamente 500 quilos de alimentos.
Três pistas de pouso foram inutilizadas dentro da terra indígena, além de acampamentos, motores e geradores. Na semana seguinte, as equipes inutilizaram quatro acampamentos, uma balsa e 430 litros de diesel, além de apreenderem equipamentos eletrônicos, uma arma e munições.
Terceira fase: pistas clandestinas e apreensão de mercúrio
A Operação Pouso Zero envolveu a ocupação de nove pistas clandestinas na Terra Indígena Yanomami para impedir o transporte de garimpeiros, combustível e equipamentos.
A Polícia Rodoviária Federal apreendeu, em Boa Vista, aproximadamente 34,5 quilos de mercúrio transportados de Lethem, na Guiana. O metal é utilizado no processo de separação do ouro.
As equipes inutilizaram três acampamentos, 11 motores, quatro geradores, uma balsa, três embarcações, 1.360 litros de diesel e uma pista de pouso. Também foram apreendidas quatro armas e 26 munições. As fiscalizações também alcançaram oficinas e locais de manutenção de aeronaves em Boa Vista, associados à logística aérea do garimpo.
Última fase: apreensão de aeronaves, mercúrio e combustível
Na última fase da operação, o foco foi eliminar a possibilidade de transporte e apreender o mercúrio, que serve para fazer a separação do ouro. O uso do mercúrio é a principal fonte de degradação ambiental, gerando também graves problemas de saúde para os povos Yanomami. Em todas as fases, desde julho, o principal material apreendido foi o mercúrio, que é essencial para o processo do garimpo. Todas as etapas contaram com a inutilização de aeronaves, visto que esse é o principal meio utilizado para escoar o ouro para outras regiões. Ao inutilizar os aviões, os garimpeiros ficam impossibilitados de ir e vir.
Principais impactos ambientais do mercúrio
O processo de separação do ouro (conhecido como amálgama) é feito ao misturar o mercúrio à lama extraída dos rios para que ele se ligue às pequenas partículas de ouro. Na sequência, essa mistura é queimada: o mercúrio evapora e o que resta é somente o ouro. Esse vapor químico é liberado diretamente no ar, e o restante do metal é descartado na água e no solo, contaminando os rios e os peixes, que servem de alimento para a população indígena.
O mercúrio liberado nos rios transforma-se em metilmercúrio, que é altamente tóxico. Ao entrar na cadeia alimentar através do peixe, o composto químico afeta a fauna e quem consome o pescado, ocasionando problemas de saúde para a população indígena e ribeirinha.
Impactos na saúde

Yanomamis de nove aldeias estão contaminados por mercúrio (Foto: Agência Gov/Divulgação)
Ao entrar no organismo, o mercúrio ataca diretamente o sistema nervoso central, o que causa alterações na força e na sensibilidade, redução no desempenho cognitivo, além de problemas de fala, equilíbrio e coordenação motora.
Os fetos e as crianças pequenas são os mais vulneráveis. A exposição no período pré-natal pode provocar paralisia cerebral fetal, atrasos severos no desenvolvimento neuropsicomotor, déficits de inteligência e danos irreversíveis na formação do cérebro.
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