Nery Rezende foi uma mulher negra, trabalhadora urbana, com breve percurso artístico, que viveu a cidade de São Paulo durante o século 20. Ela acumulou diários, cadernos, cartas, fotografias e papéis diversos ao longo da vida, formando um arquivo pessoal importante.
O acervo do Museu do Ipiranga reúne mais de 9 mil itens. É o primeiro de uma mulher negra a integrar o acervo do museu ligado à USP. O material chegou ao museu em 2020, por meio da doação da filha Greissy Rezende.
O arquivo traz informações sobre Nery, sua irmã Alice Rezende e a mãe Maria Helena Rezende da Silva. Maria Helena era trabalhadora doméstica e lavadeira; as três mulheres aparecem em recortes de vida, estudo, trabalho e cultura, na São Paulo da década de 1950.
Como o arquivo entra na pesquisa
A curadoria é comandada pela equipe do museu, com apoio de Solange Ferraz de Lima, professora e pesquisadora. O conjunto inclui fotos, documentos, objetos do cotidiano doméstico e itens de consumo, oferecendo visão da classe trabalhadora.
Alexandre Araujo Bispo, antropólogo da USP, foi quem intermediou a doação e fez o primeiro contato com o acervo, ao visitar o apartamento onde Nery viveu nos Campos Elíseos. Ele também integrou o estudo que originou o livro em preparo.
O pesquisador destaca que a variedade de itens permite investigar o cotidiano de uma mulher negra na metrópole, abrindo caminhos para estudos sobre consumo, preços e salários da época. O projeto soma reciclações de dados para entender a história social.
Foco em Alice Rezende e a cultura negra
Liliane Braga, pesquisadora do museu, está no processo de tratamento do material e aponta o dossiê da irmã Alice como peça central. O arquivo indica diários, roteiros e recortes que ajudam a mapear a atuação de Alice no Radiatro Experimental do Negro de São Paulo.
A atriz participou de produções da Companhia Veracruz, no cinema nacional dos anos 1950, e aparece em registros que sugerem sua presença em rodas de cinema e televisão. O material ainda revela datas de gravação, testes e aprov ações.
A pesquisadora ressalta a invisibilidade histórica de artistas negros da época e a importância do arquivo para compreender esse circuito cultural em formação. O filme Veneno, de 1952, é citado como exemplo de produção em que Alice atuou sem créditos diretos.
Entre na conversa da comunidade