Um encontro inesperado reacende lembranças. Ao procurar livros para a nova estante, encontrei o caderno de francês da minha tia. Ele guarda aulas antigas, com pronúncia, verbos básicos e frases de viagem. A voz da tia parece ainda presente nas margens amareladas.
O caderno é antigo, torto pelas dobras do tempo. As páginas contêm traços da mão dela, como se os exercícios tivessem sido feitos ontem. Entre 40 anos de distância, a memória insiste em soar como uma aula repetida na cabeça.
A saudade se revela como uma armadilha enferrujada, sem chave para abrir. Em meio às lembranças, a vida real aparece: dias antes, minha gerente de banco ofereceu um seguro de vida, com o receio que tudo estivesse fora de controle.
Reencontro e decisão
A tia queria terminar o curso de francês, mas não chegou a completar. Guardar o caderno pesou, e eu não consegui ficar com ele. Ela nunca viajou à França, mesmo sonhando com as excursões que tanto a animavam.
Enquanto organizava meus livros para uma nova estante, achei justo dar um passo definitivo. Decidi comprar um piano, um presente que associe a memória à vida que ainda pode ser vivida. O gesto celebra a relação entre tempo e afeto.
O piano representa um elo entre passado e presente. A ideia é aprender a tocar Volver a los 17, em memória da tia e da música que compartilhávamos. A saudade, apesar da dor, ainda canta e aponta caminhos.
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