O quarto álbum do Radiohead, Amnesiac (2001), nasceu das mesmas sessões de gravação de Kid A (2000). O plano original era um lançamento duplo, mas a densidade do material levou à decisão de separá-los. Assim, Amnesiac chegou como a segunda metade do projeto, visto, na época, como sobras.
A banda trabalhava em uma transformação radical de som. Thom Yorke perdeu o interesse pelo rock com guitarras tradicionais, enquanto os demais integrantes redesenharam papéis. Krautrock, música eletrônica, jazz e a música clássica contemporânea influenciaram o processo. O resultado recebeu leitura mais complexa ao longo dos anos.
A construção musical e as leituras
Pelo lado sonoro, Amnesiac é mais exuberante que Kid A. Faixas como Pyramid Song e You and Whose Army? apostam em piano com influência de jazz, aproximando-se de Coltrane. I Might Be Wrong usa riff grooveado, com a percussão servindo mais de acento que de base.
Dollars and Cents equilibra groove tenso com arranjo orquestral, assinado por Jonny Greenwood e executado pela Orchestra of St. John’s. Morning Bell, regravada, ganha tom de cantiga de ninar que não alivia o desconforto. As letras exploram resistências discretas à sociedade moderna.
O que mudou na percepção do público
Yorke atribui a I Might Be Wrong a relato de Rachel Owen, sua então companheira, sobre seguir em frente apesar das dificuldades. A percepção de Amnesiac como “sobras” começou a se desfazer, com leitores e fãs reconhecendo a identidade própria do disco.
Legado e reedição
Com o tempo, Amnesiac passou a ser visto como gêmeo de Kid A, não apenas como complemento. Em 2021, a banda lançou Kid A Mnesia, reunindo os dois trabalhos para celebrar os 20 anos de Amnesiac. A edição reforçou a leitura de Amnesiac como parte de um formato duplo planejado originalmente.
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