Bettina Grossman, artista recluída, viveu 50 anos no Chelsea Hotel, em Nova York, coberta de obras em cada superfície. Agora, sua produção ocupa 503 do hotel e chega a Glasgow em exibição inédita. O conjunto mostra como sua prática ultrapassou o espaço de uma única sala.
Barrada, fotógrafa e artista, editou o livro Bettina com Gregor Huber. Ela descreve a entrada em 503 como cruzar um mundo diferente, onde 40 anos de criação se acumulam em paredes, caixas e objetos. Bettina só abriu a porta para poucos.
A residência de Bettina começou em 1972, quando se instalou no Chelsea. Durante décadas, ela se tornou quase invisível para o público, guardando obras em catálogos que entravam e saíam com o tempo. O cotidiano era dedicado à arte.
A artista era conhecida por transformar o espaço em um acervo fechado. Quando saía para compras, levava seus trabalhos em um carrinho de supermercado para evitar furtos. Dormia no corredor, cercada por trabalhos empilhados.
A exposição Bettina: Finite Structures integra a Glasgow International. O show traz esculturas de mármore, animação em 8 mm digitalizada e fotografias dos anos 70. Obras novas também são apresentadas pela primeira vez.
Entre as peças estão Penetration of Four Equal Constants by Eight Elements of Progressive Displacement (1975-76), produzida com a ajuda de um físico. A instalação usa um osciloscópio controlado por computador.
Fotografias desenvolvidas na casa de Bettina, incluindo Phenomenological New York, apresentam distorções de reflexos de vidro e aço das torres de Wall Street. Autorretratos ligam as distorções ao corpo feminino.
Bettina nasceu Bettina Grossman em Brooklyn, em 1927, cresceu numa família judia ortodoxa e chegou a ser chamada de Betty. Ela estudou arte comercial e, na França, expandiu técnicas em vidro, mármore e joalheria.
Ao retornar a Nova York em 1966, Bettina passou a explorar a relação entre forma, espaço e padrão. A ideia central envolvia uma dimensão adicional, que chamou de quarto nível no desenvolvimento conceitual.
Um incêndio destruiu seu ateliê, levando tudo o que havia produzido até então. Isso impulsionou seu retorno à Europa e a busca por novas técnicas em mármore, com sinais de renascimento em suas obras.
Após o retorno, Bettina mergulhou em práticas teóricas e diagramáticas, ampliando a relação entre superfície e espaço. A artista instalou-se no Chelsea e criou um conceito de pesquisa noumenológica.
Ao falecer em 2021, aos 94 anos, Bettina recebeu reconhecimento tardenamente. A notoriedade ganhou força com a acreção de Barrada e com exibição no MoMA PS1, antes de Glasgow receber a mostra.
O legado de Bettina permanece em processo de unboxing, documentação e catalogação. O executor da herança, Barrada, e a equipe continuam a desvendar o arquivo e seus segredos, ainda por revelar.
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