O movimento liderado por estudantes venceu as eleições legislativas na Sérvia e caminhava nesta segunda-feira (26) para garantir uma maioria clara no Parlamento, enquanto se preparava para governar o país após pôr fim a 14 anos de domínio populista de direita.
A vitória nas eleições legislativas de domingo (25) veio depois de quase dois anos de protestos contra o governo, desencadeados pelo desabamento de uma marquise na estação ferroviária de Novi Sad, no norte do país, em 2024, que deixou 16 mortos.
A tragédia, amplamente atribuída à corrupção, provocou algumas das maiores manifestações na Sérvia desde a queda do ex-líder autoritário Slobodan Milosevic, em 2000.
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O resultado deve ser acompanhado de perto em toda a Europa, num momento em que o continente enfrenta uma onda de mobilizações lideradas por jovens.
O analista político Dusan Vucicevic, porém, avaliou que o movimento sérvio se diferencia de outros protestos.
“Esse experimento de democracia de base acabou conseguindo mais de 50% dos votos, embora ainda não esteja claro se um modelo semelhante funcionaria em outros países”, afirmou Vucicevic à AFP.
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Segundo o observatório eleitoral independente CeSID, com 96% das urnas apuradas, a Lista dos Estudantes obteve 53% dos votos, contra quase 39% do Partido Progressista Sérvio (SNS), legenda populista de Aleksandar Vucic, que renunciou à Presidência para concorrer ao cargo de primeiro-ministro.
O desempenho garantiria ao grupo 140 das 250 cadeiras da Assembleia, ante 103 do SNS. Até o momento, nenhuma outra legenda alcançou o percentual mínimo de votos exigido para ter representação no Parlamento.
“Os estudantes venceram e, com eles, também a esperança de que a Sérvia possa ser um país de justiça, liberdade e dignidade”, declarou Radomir Saicic, candidato da lista, em discurso a apoiadores na sede de campanha do movimento, na noite de domingo.
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O comparecimento de quase 70%, próximo do recorde e o mais alto em eleições legislativas no país balcânico em mais de três décadas, provavelmente impulsionou a reviravolta política.
O índice superou o da eleição parlamentar de 1993, quando pouco mais de 61% dos eleitores foram às urnas.
A queda de Vucic
Para surpresa de muitos observadores, Vucic, que adotou uma postura cada vez mais autoritária nos últimos anos, admitiu a derrota menos de duas horas após o fechamento das urnas.
O reconhecimento desencadeou cenas de euforia entre os apoiadores do movimento, que comemoraram a derrota de um governo que eles responsabilizam por uma corrupção profundamente enraizada.
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Milhares de pessoas tomaram as ruas de Belgrado e de outras cidades para festejar, com buzinaço, palavras de ordem e fogos de artifício iluminando o céu.
Em pronunciamento a apoiadores na noite de domingo, Vucic, que manteve laços estreitos com a Rússia durante todo o seu mandato, culpou potências estrangeiras pelo resultado.
“Quero que as pessoas saibam que isso foi a validação de uma revolução feita com o apoio direto de vários países europeus e do Estado profundo dos Estados Unidos, o mesmo que também é contra o presidente Trump”, disse.
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Durante quase dois anos, os estudantes promoveram atos e marcharam pelo país para dialogar diretamente com os eleitores e fazer frente à máquina de comunicação do SNS.
As manifestações reuniram multidões. O último grande ato antes da votação, em Belgrado, na quinta-feira (22), atraiu cerca de 150 mil pessoas, segundo uma organização independente que acompanha os protestos.
Uma plataforma ampla
A maior parte dos 250 candidatos da lista estudantil é formada por especialistas de áreas como o meio acadêmico e as artes, com pouca experiência política.
O movimento tem uma plataforma ampla, centrada no compromisso de combater a corrupção.
A pauta evoluiu da exigência de uma investigação transparente sobre a tragédia de Novi Sad para a cobrança por eleições antecipadas.
O grupo deixou em segundo plano temas de política externa, como a relação da Sérvia com a União Europeia e com a Rússia, aliada de longa data.
Nesta segunda-feira, o Kremlin afirmou esperar que os novos líderes sérvios “entendam que a cooperação com a Rússia é do interesse da Sérvia, porque traz benefícios para a Sérvia”.
“Desde o início, eles insistiram ao máximo que a Sérvia precisa, antes de tudo, resolver seus problemas políticos internos: as falhas no processo eleitoral, o ambiente da mídia e o desmonte literal de todas as instituições do país, do nível nacional ao local”, disse o analista político Dusan Vucicevic.
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A expectativa é que os estudantes priorizem a reforma institucional e o Estado de Direito, o que, segundo o analista, aproximaria o país da adesão à UE.
Depois de resistir aos protestos por quase dois anos, Vucic, sob pressão crescente, convocou a votação no mês passado, alegando “grande turbulência no cenário político interno”.
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