O presidente do Paraguai, Santiago Peña, renunciou nesta quinta-feira (5), em meio a uma crise bancária que provocou o congelamento de depósitos de cerca de 3 milhões de pessoas, levou manifestantes às ruas e motivou um pedido de impeachment contra o governo.
A renúncia ocorreu no mesmo dia em que a Câmara dos Deputados analisaria a abertura de um processo para destituí-lo do cargo. A oposição acusava Peña de mau desempenho de suas funções, apontava um suposto conflito de interesses e questionava seus vínculos anteriores com o Ueno Bank, instituição financeira no centro da crise.
O presidente havia assumido o cargo em 2023 e tinha mandato previsto até 2028. A crise que culminou em sua saída se agravou em apenas três dias, entre a intervenção no banco e a pressão política no Congresso.
Como começou a crise do Ueno Bank?
Na terça-feira (3), o Banco Central do Paraguai anunciou uma intervenção no Ueno Bank, um dos maiores bancos digitais do país, após identificar problemas de capital e solvência.
A medida suspendeu os serviços da instituição e congelou os depósitos de aproximadamente 3 milhões de clientes, número equivalente a quase metade dos 6,4 milhões de habitantes do Paraguai.
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O Ueno Bank, controlado majoritariamente pelo Grupo Vázquez, havia crescido rapidamente nos últimos anos. A instituição administrava cerca de US$ 850 milhões em recursos públicos e vinha sendo fiscalizada por suspeitas de concessão excessiva de crédito a empresas ligadas ao próprio grupo controlador.
A intervenção provocou uma corrida de clientes às agências, que permaneceram fechadas. Muitos buscavam informações sobre como recuperar suas economias.
O Banco Central afirmou que o problema era isolado e não representava uma crise generalizada no sistema financeiro paraguaio. A autoridade monetária também anunciou a nomeação de interventores para avaliar a situação patrimonial do banco.
Qual era a ligação de Santiago Peña com o banco?
A crise financeira rapidamente ganhou dimensão política por causa das relações anteriores de Peña com o grupo empresarial responsável pelo Ueno Bank.
Antes de deixar essa participação em 2025, o presidente possuía ações de um grupo que controlava a instituição.
A oposição passou a questionar se decisões tomadas durante seu governo teriam beneficiado o banco e se houve favorecimento na destinação de recursos públicos e previdenciários à instituição.
O senador oposicionista Rafael Filizzola afirmou que o prejuízo relacionado ao caso ultrapassaria US$ 3 bilhões, cerca de R$ 16,47 bilhões, e acusou Peña de ter ligação direta com o episódio.
Segundo o parlamentar, mecanismos de controle anticorrupção teriam sido flexibilizados após a chegada do presidente ao poder, enquanto o banco ampliava suas operações.
Crise levou a protestos e prisões
Ainda na terça-feira (3), o Banco Central apresentou uma denúncia contra o Ueno Bank. Oito dirigentes da instituição foram presos, incluindo seu presidente, Miguel Vázquez.
A crise também provocou a renúncia do presidente do Banco Central, Carlos Carvallo, que havia comandado o Ueno até agosto de 2023.
Carvallo afirmou que sua saída ajudaria a reduzir a controvérsia em torno da autoridade monetária, embora tenha anunciado que permaneceria no cargo durante os procedimentos relacionados à instituição.
Na quarta-feira (4), centenas de pessoas protestaram em Assunção, capital paraguaia, exigindo a devolução dos depósitos e a responsabilização dos envolvidos.
Governo tentou liberar dinheiro dos clientes
Diante da pressão, Peña sancionou na quarta-feira (4) uma lei aprovada em caráter de urgência pelo Congresso para antecipar a devolução de parte dos depósitos congelados.
Segundo o Banco Central, os clientes poderão receber inicialmente até 10 milhões de guaranis, aproximadamente R$ 9 mil, com previsão de pagamento em até cinco dias.
A legislação paraguaia também prevê proteção de depósitos até o equivalente a 75 salários mínimos, aproximadamente US$ 39 mil (R$ 213 mil).
A medida buscava reduzir os efeitos imediatos da intervenção sobre os correntistas, mas não impediu o avanço da crise política.
Pedido de impeachment aumentou a pressão
Com a mobilização nas ruas e as suspeitas envolvendo o banco, deputados da oposição apresentaram um pedido de impeachment contra Santiago Peña e o vice-presidente Pedro Alliana.
O documento acusava o presidente de “mau desempenho de suas funções no exercício do cargo” e citava suposto conflito de interesses, questionamentos sobre seu patrimônio e decisões regulatórias que teriam favorecido o Ueno Bank.
A oposição também criticava a concentração de recursos da Previdência na instituição financeira.
Para que o processo avançasse na Câmara dos Deputados, seriam necessários 53 votos entre os 80 parlamentares. Caso aprovado, o julgamento seguiria para o Senado, onde a destituição dependeria de 30 votos entre 45 senadores.
Embora o Partido Colorado, de Peña, tivesse maioria nas duas Casas, o presidente da legenda e ex-presidente Horacio Cartes havia se distanciado do governo.
A votação estava prevista para a manhã desta quinta-feira (5), mas Peña anunciou sua renúncia antes da análise do pedido, encerrando antecipadamente o mandato que deveria terminar em 2028.
A saída ocorreu 14 anos depois do último impeachment presidencial no Paraguai. Em 2012, Fernando Lugo foi destituído pelo Congresso após uma crise desencadeada por um confronto que deixou 17 mortos.
Quem assume a Presidência do Paraguai?
Com a renúncia de Santiago Peña, o vice-presidente Pedro Alliana deve assumir a Presidência do Paraguai, conforme prevê a Constituição do país.
Segundo o jornal paraguaio ABC, a sucessão seguirá as regras constitucionais. Com a saída de Alliana da Vice-Presidência para assumir o comando do Executivo, caberá ao Congresso Nacional escolher seu substituto.
A renúncia de Peña ainda precisa ser aceita pelo Congresso para que a transferência de poder seja formalizada.
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