Os documentos que ajudaram a sustentar a escravidão O reconhecimento atinge diretamente documentos emitidos pelo Vaticano nos séculos XV e XVI, durante o avanço colonial europeu. Um dos mais emblemáticos é a bula Dum Diversas, publicada em 1452 pelo papa Nicolau V. O documento autorizava oficialmente a Coroa portuguesa a “invadir, conquistar e subjugar” povos […]
Os documentos que ajudaram a sustentar a escravidão
O reconhecimento atinge diretamente documentos emitidos pelo Vaticano nos séculos XV e XVI, durante o avanço colonial europeu.
Um dos mais emblemáticos é a bula Dum Diversas, publicada em 1452 pelo papa Nicolau V. O documento autorizava oficialmente a Coroa portuguesa a “invadir, conquistar e subjugar” povos não cristãos na África e em outros territórios.
Mais do que isso: a bula permitia que essas populações fossem reduzidas à “escravidão perpétua”.
Três anos depois, outra bula papal, Romanus Pontifex, ampliou esse entendimento e ajudou a consolidar aquilo que ficaria conhecido historicamente como “Doutrina da Descoberta”.
O que foi a “Doutrina da Descoberta”
A chamada “Doutrina da Descoberta” foi um conjunto de interpretações jurídicas, políticas e religiosas usadas pelas potências europeias para justificar a ocupação colonial de territórios na África e nas Américas.
Na prática, a lógica era simples: terras ocupadas por povos não cristãos poderiam ser reivindicadas por reinos europeus com respaldo religioso.
As bulas papais emitidas naquele período davam legitimidade espiritual às conquistas coloniais e à expansão marítima europeia, fortalecendo a ideia de que populações consideradas “pagãs” ou “infiéis” poderiam ser dominadas, convertidas e, em alguns casos, escravizadas.
Décadas depois, essas ideias ajudariam a sustentar juridicamente processos de colonização, expulsão de povos originários e escravidão transatlântica.
Embora o Vaticano tenha repudiado formalmente a Doutrina da Descoberta em 2023, as antigas bulas nunca foram oficialmente anuladas.
O papa da inteligência artificial que decidiu revisitar o passado da Igreja
O pedido histórico de desculpas aparece dentro de uma encíclica cujo tema central é inteligência artificial.
Ao longo de mais de 40 mil palavras, o documento discute os impactos éticos da revolução digital, os riscos da automação e o crescimento do poder das grandes empresas de tecnologia.
Leão XIV estabelece um paralelo direto entre a escravidão colonial e aquilo que chama de “novas formas de escravidão” ligadas à economia digital.
O texto menciona condições precárias de trabalho associadas à extração de minerais raros usados na fabricação de chips e sistemas de inteligência artificial.
Segundo o pontífice, reconhecer os erros históricos da Igreja é essencial para impedir que novas estruturas de exploração humana sejam normalizadas no futuro.
“Precisamos evitar a necessidade de pedir perdão novamente por termos falhado em proteger a dignidade humana”, afirmou.
Papa tinha ancestrais negros
O pedido de desculpas também carrega um peso pessoal.
Primeiro papa nascido nos Estados Unidos, Leão XIV possui ascendência ligada tanto a pessoas escravizadas quanto a proprietários de escravos. Pesquisas genealógicas apontam que parte significativa de seus ancestrais americanos era formada por negros identificados em registros históricos como escravizados, crioulos ou pessoas livres de cor.
A repercussão foi imediata.
A historiadora Shannen Dee Williams, especialista em história de católicos negros nos Estados Unidos, classificou o pronunciamento como “um passo monumental” rumo ao reconhecimento da verdade histórica.
Já o padre jesuíta Christopher Kellerman, pesquisador da relação entre Igreja e escravidão, disse que o gesto fortalece a credibilidade moral do Vaticano, embora ainda exista espaço para que a Igreja aprofunde sua autocrítica institucional sobre o tema.

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