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Novo estudo defende proteção de uma das joias menos compreendidas da África

Estudo aponta que o planalto de Bié sustenta aquíferos que abastecem Luanda e o delta do Okavango; expansão humana aumenta o risco e exige proteção

Aerial view of the Cuando River. The National Geographic Okavango Wilderness Project’s 2018 expedition focused on the eastern-most section of their survey area in Angola. The trek took the team down the length of the Cuando River, a journey that allowed them to explore the intersection of the Okavango and Zambezi Basins, two of the largest basins in Southern Africa. Image by Kostadin Luchansky/National Geographic Okavango Wilderness Project.
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  • Estudo aponta que a região do Bié Plateau, em Angola, é a fonte de água para grandes bacias do sul da África, incluindo o Okavango e Luanda, e exige proteção efetiva.
  • Análise com 41 anos de dados de chuva estima que a área recebe cerca de 423 km³ de água por ano, recarregando aquíferos, lagos e pântanos que liberam água no verão e mês seco.
  • O grupo NGOWP identificou 143 espécies novas na região, incluindo plantas, animais e fungos, e defende que os pântanos e lagos sejam listados como Ramsar Site de importância internacional.
  • Crescente povoamento, queimadas para abertura de áreas de cultivo e possível madeireira ameaçam os ecossistemas e o abastecimento a áreas downstream.
  • Os pesquisadores ressaltam a necessidade de envolver comunidades locais e adotar medidas mais firmes de proteção para preservar a fonte de água que alimenta o Okavango e outras áreas.

A equipe liderada por Mauro Lourenco, ligada ao National Geographic Okavango Wilderness Project, defende a proteção de uma área alta e pouco compreendida que funciona como a principal fonte de água de várias regiões da África Austral. O estudo, com oito anos de dados, aponta para o Bié Plateau, no sudeste de Angola, como “torre de água” da região.

A pesquisa acompanha o trabalho de conservação que envolve cientistas, ambientalistas e exploradores. Lourenco e colegas identificaram grandes áreas com potencial para abastecer grandes rios da região, incluindo o Okavango, o Congo e o Zambezi, além do Cuanza, que alimenta Luanda.

O estudo usa 41 anos de chuvas, com dados de CHIRPS, já que estações meteorológicas locais foram interrompidas pela guerra civil. A região recebe cerca de 423 km³ de chuva por ano, suficiente para recarregar aquíferos e lagoas de água doce.

O foco está no Bié Plateau, onde surgem as nascentes do Okavango e de outros rios importantes. A equipe já identificou mais de 380 mil km² a serem protegidos, para garantir o fluxo de água para áreas ribeirinhas e países vizinhos.

A região abriga peatlands e lagos que armazenam água durante o verão e a liberam no inverno seco. A preservação desses recursos é vista como essencial para a estabilidade hídrica de Angola e de países como Botsuana, onde está o delta do Okavango.

O trabalho ressalta que o delta já é protegido, mas suas fontes de água não recebem a mesma atenção. Definir o território da chamada water tower é visto como passo crucial para ampliar a proteção das nascentes.

De acordo com Lourenco, o objetivo é delimitar uma fronteira que oriente ações de conservação ao longo de áreas críticas, assegurando água para o delta do Okavango, o que beneficia também a população local.

Pesquisadores holandeses da Vrije Universiteit destacam que proteger torres de água em nível global evita o uso excessivo de recursos hídricos e facilita financiamentos internacionais para conservação. A participação comunitária é destacada como fundamental.

O pesquisador Yaw Abrampah, da Universidade de Oxford, aponta que muitos ecossistemas de água doce encontram-se pouco protegidos. Ele ressalva a necessidade de cumprir compromissos internacionais como a Convenção de Ramsar e ampliar ações efetivas no terreno.

Os Lingachos locais, ou Lisima lya mwono, significam “a fonte da vida”, expressão que revela o conhecimento tradicional sobre a importância das áreas úmidas para a sobrevivência da população e da biodiversidade.

A equipe do NGOWP observa que práticas tradicionais de manejo ajudaram na recuperação de áreas degradadas. Em Tempue, uma vila, uma porção de 2 km² mostrou regeneração após anos sem uso humano intenso.

Entretanto, o aumento de pessoas de outras regiões e queimadas para abrir áreas de cultivo pressionam os peatlands. A queima constante reduz a capacidade de retenção de água e agrava os riscos de degradação ambiental.

Além disso, a abertura de estradas pode atrair madeireiros e explorar espécies como guibourtia e muwka, agravando a ameaça aos ecossistemas de alta montanha. A proteção requer ações coordenadas entre governos, comunidades e instituições internacionais.

O NGOWP defende que as áreas altas sejam classificadas como Ramsar Site de Importância Internacional, para ampliar a proteção e facilitar parcerias de preservação e financiamento. A meta é sustentar água downstream e a biodiversidade local.

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