- Estudo aponta que a mineração ilegal de ouro em Madre de Dios, no sudeste do Peru, está destruindo turfeiras — ecossistemas de carbono ricos na Amazônia.
- Nos últimos dois anos, a destruição dessas turfeiras foi maior do que nos trinta anos anteriores, segundo a pesquisa publicada.
- Ao todo, mais de 550 hectares de turfeiras foram destruídos nos últimos 35 anos, com mais da metade nesse último biênio.
- Pelo menos 63 de 219 áreas de turfeira foram afetadas, colocando mais de 10.000 hectares em risco imediato e potencialmente até 14,5 milhões de toneladas de carbono liberadas.
- A pesquisa usa dados de satélite Landsat da Nasa e indica que a mineração pode avançar para 25% de todo o mining activity na região até 2027, com impactos ambientais, sociais e econômicos.
O Peru abriga pântanos de turfa raros, ecossistemas ricos em carbono que ajudam a combater as mudanças climáticas ao absorver e armazenar carbono. Contudo, na região de Madre de Dios, no sudeste do país, a mineração ilegal de ouro está dizimando essas áreas.
Um estudo publicado neste mês na revista Environmental Research Letters usa dados de 35 anos do satélite Landsat da Nasa para acompanhar a expansão da mineração. A pesquisa aponta que mais de 550 hectares de turfa foram destruídos pela atividade nos últimos 35 anos, com a metade da perda ocorrendo nos últimos dois anos.
A pesquisa indica que pelo menos 63 de 219 áreas de turfa foram afetadas, colocando mais de 10 mil hectares em risco imediato. O estudo estima ainda que até 14,5 milhões de toneladas métricas de carbono poderiam ser liberadas à atmosfera, em comparação a emissões de veículos.
A expansão da mineração em turfa é descrita pelos autores como um risco existencial para o complexo de turfa da região. O trabalho alerta para impactos ambientais, sociais e econômicos a longo prazo caso o ritmo atual persista.
Em Madre de Dios, as turfas surgiram como foco de atenção científica apenas em 2012. Estudos antigos subestimaram a presença desses solos na Amazônia, levando alguns pesquisadores a acreditar que esse versante boreal não existiria na região.
Segundo o pesquisador coautor, John Ethan Householder, o reconhecimento da turfa amazônica ocorreu após vigilância mais detalhada. Em 2010, ele disse ter levado meses para perceber que estava pisando em turfa, algo inesperado para a Amazônia.
A turfa se forma em inundação permanente que dificulta a decomposição de matéria orgânica. No entanto, a Amazônia apresenta inundações sazonais e períodos secos, o que torna a formação de turfa menos frequente. Condições raras permitem a água permanecer por mais tempo.
Esses solos são um dos ecossistemas mais densos em carbono da Amazônia, armazenando até sete vezes mais carbono por hectare do que ecossistemas florestais próximos, segundo o estudo. Manter esse carbono sob o solo é crucial para reduzir gases de efeito estufa.
“Esse carbono se acumulou ao longo de cerca de 6 mil a 10 mil anos e, em duas décadas, pode ser removido”, afirma Householder. O pesquisador ressalta o peso desse impacto para o clima global.
Durante a pandemia de COVID-19, o governo peruano lançou operações contra a mineração ilegal, com resultados temporários. Campanhas restritivas não foram permanentes e as áreas ilegais voltaram a aparecer e ampliar o alcance.
O levantamento por imagens de satélite mostra que a maior parte da mineração ocorre perto de rios, pela necessidade de água para extrair o ouro e operar as máquinas. A turfa, no entanto, fica em áreas mais distantes dos cursos d’água, o que dificultava o avanço inicial da atividade.
Atualmente, a mineração em turfa representa cerca de 9% de todo o garimpo em Madre de Dios. Os pesquisadores indicam que esse percentual pode subir para 25% até 2027, com a atuação migrando para áreas mais afastadas e com menos competição.
“Distância tem protegido essas turfas, mas esse isolamento está se reduzindo”, comenta Householder. Segundo ele, a erosão dessa barreira natural ocorre conforme garimpeiros avançam para o interior da floresta, buscando pontos isolados.
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