- Estudo com pesquisadores da USP e instituições dos Estados Unidos, Suíça e Japão aponta que a capacidade de linguagem já estava disponível pelo menos 135 mil anos atrás, com base em dados arqueológicos e genômicos.
- A data deriva da primeira cisão populacional entre Homo sapiens na África, que gerou dois grupos, incluindo os Khoe-San, e o restante das populações humanas.
- A abordagem utiliza marcadores genômicos variados (DNA mitocondrial, cromossomo Y e genomas inteiros) para chegar a uma amplitude de datas, fixando uma data mínima de 135 mil anos.
- Os autores afirmam buscar maior clareza sobre quando a capacidade linguística passou a existir, reconhecendo a falta de evidências diretas para uma data exata.
- O estudo é visto como provocação para leituras interdisciplinares que integrem registro arqueológico, genética e linguagem, sem conclusões definitivas sobre a origem da linguagem.
O estudo reuniu dados arqueológicos e genômicos atuais para estabelecer 135 mil anos atrás como o mínimo em que a capacidade de linguagem já existiria no Homo sapiens. Pesquisadores da USP, com colaboração de instituições nos EUA, Suíça e Japão, apresentaram a data em um trabalho publicado.
A fundamentação parte da primeira cisão populacional entre humanos, ocorrida na África. Desse evento nasceu um grupo que originou os povos Khoe-Sān e outro que se espalhou pelo restante do planeta. A hipótese é de que, nessa divisão, já deveria haver a capacidade linguística disponível em todas as populações.
Segundo Mercedes Okumura, do IB da USP, a análise contempla diversas linhagens genéticas. Ela explica que foram usados dados de DNA mitocondrial, cromossomo Y e genomas inteiros para chegar a uma amplitude de datas, com o mínimo apontando para 135 mil anos. A apuração não busca uma data única, e sim o marco mínimo.
Vítor Nóbrega, coautor, afirma que o objetivo é tornar o tema mais robusto e falseável. Ele destaca que a leitura do registro genômico, aliada à interpretação arqueológica, pode oferecer evidências mais objetivas sobre quando a linguagem esteve disponível.
O artigo discute ainda limitações: não há evidência direta de quando a linguagem surgiu, e o recurso de escrita é muito posterior. Por isso, a pesquisa aposta em abordagens multidisciplinares para interpretar indícios indiretos da capacidade linguística.
Nóbrega ressalta a importância de métodos que permitam ler o registro arqueológico e articulá-lo com a genética. O estudo visa, mesmo sem resposta definitiva, tornar mais claro o momento em que a linguagem poderia estar já presente.
Em outra linha de debate, pesquisadores comentam relação entre linguagem humana e comunicação de primatas. Um estudo recente na Science sugere que bonobos podem encadear sons com significado, o que reacende o debate sobre o que distingue a linguagem humana.
Para especialistas como Shigeru Miyagawa, a linguagem humana seria única, mesmo que alguns componentes sejam compartilhados com outros primatas. A pesquisa em bonobos não redefine, porém, as diferenças centrais entre a comunicação humana e a de outros hominídeos.
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