- Câmeras-clareiras na Amazônia peruana registraram, quatro vezes em locais diferentes ao longo de anos, o acompanhamento entre ocelotes (Leopardus pardalis) e gambás-cangurus comuns (Didelphis marsupialis).
- Em alguns registros, o felino e o marsupial foram vistos se movendo juntos e voltando pelo mesmo caminho minutos depois, sem demonstrar alarme por parte do marsupial.
- Experimentos de campo indicam que gambás demonstraram preferência pelo cheiro de ocelotes, permanecendo, cheirando e pressionando tecidos com odor de ocelote.
- Pesquisadores sugerem duas hipóteses para a parceria: melhoria na forragem ou camuflagem olfativa, beneficiando ambos em diferentes aspectos.
- O estudo, publicado na revista Ecosphere, levanta a possibilidade de interação mútua entre predadores solitários e presas onívoras, destacando ainda lacunas sobre a dinâmica de ecossistemas na Amazônia.
Na Amazônia peruana, câmeras de armadilha registraram uma parceria incomum entre ocelotos e gambás-defumadores, em quatro locais diferentes ao longo de anos. Os felinos, predadores solitários, passaram junto aos gambás e às vezes retornaram pelo mesmo caminho, agora na companhia um do outro. O gambá não demonstrou sinais de pânico.
Este comportamento é sem precedentes. Associações entre carnívoros solitários e onívoros, que às vezes se alimentam um do outro, são extremamente raras. Novas evidências indicam que esse emparelhamento pode ter mais do que acaso.
Em experimentos de campo, os gambás mostraram preferência pelo cheiro de oceloto em relação ao de puma ou a controles neutros. Eles cheiraram, permaneceram e se esfregaram em tecidos com odor de oceloto, como se buscassem algum tipo de comunicação química.
Por que interagir com um animal que pode ser seu predador? Os pesquisadores sugerem duas hipóteses: maior eficiência na forrageamento ou camuflagem olfativa. O gambá pode se beneficiar da habilidade de caçar do oceloto, enquanto o oceloto pode ganhar mascarando seu cheiro com o odor do gambá.
O estudo, publicado na Ecosphere, é liderado pelo ecologista Ettore Camerlenghi, da ETH Zurich. Ainda não está claro se o vínculo é mutualístico, manipulatório ou apenas curioso, mas a descoberta evidencia lacunas na compreensão da dinâmica da floresta tropical.
A equipe ressalta que o que foi observado reforça a ideia de que a ecologia da Amazônia guarda segredos mesmo em áreas bem estudadas. Cada novo indício aponta para a necessidade de mais pesquisas para entender as interações entre espécies.
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