- Em Cross River, no sudeste da Nigéria, pangolins são caçados principalmente pela carne e não pelas escamas.
- Entre 2020 e 2023, estima-se que 3.600 caçadores mataram cerca de 21 mil pangolins por ano nas florestas da região.
- A maioria dos animais era encontrada por acaso por caçadores formais; a carne é considerada muito saborosa, e os caçadores a consomem quase integralmente.
- Aproximadamente dois terços dos pangolins mortos eram da espécie branco-peluda (mais vulnerável); apenas cerca de um terço das escamas era vendido.
- Pesquisadores alertam que, para proteger a espécie, é necessário atuar não apenas na repressão, mas também em alternativas de subsistência e educação conservacionista, considerando padrões locais de consumo.
O estudo publicado na revista Nature Ecology and Evolution mostra que, na região do Cross River, no sudeste da Nigéria, a caça a pangolins tem como principal motivação o consumo de carne, e não a obtenção de escamas para o comércio internacional. A pesquisa questiona a ideia de que a demanda por escamas impulsiona fortemente a caça no país.
Charls Emogor, pesquisador originário do sudeste da Nigéria, conduziu o estudo durante o doutorado na Universidade de Cambridge, no Reino Unido. O trabalho envolve entrevistas com mais de 800 caçadores e vendedores de carne de caça em 33 locais da região, entre 2020 e 2023, para mapear espécies caçadas, métodos de caça, motivações e preços.
O levantamento estima que, entre 2020 e 2023, cerca de 3.600 caçadores mataram aproximadamente 21 mil pangolins por ano nas florestas de Cross River. Os relatos indicam que a maioria dos pangolins é capturada de forma incidental, sem alvo específico, e consumida pela própria comunidade.
Pangolins no Cross River são valorizados principalmente pela carne, considerada muito saborosa, enquanto as escamas têm demanda local baixa. Cerca de 70% das escamas obtidas são descartadas, pois não há compradores suficientes para esse produto na região.
Panorama regional e implicações
A carne de pangolim é consumida como delicadeza em várias comunidades rurais e periurbanas, o que sustenta a prática apesar da proibição de caça desde 1985. A equipe também aponta que, na ausência de redes de tráfico bem estabelecidas na região, o comércio de escamas permanece limitado, mas pode mudar com preço, acesso e informação.
Especialistas ouvidos pelo estudo destacam a necessidade de ações de conservação que considerem padrões locais de consumo. Medidas propostas incluem alternativas de renda para caçadores e projetos de educação ambiental adaptados às culturas locais, além de fortalecer a aplicação da lei.
Morenikeji, representante da Pangolin Conservation Guild Nigeria, ressalta que intervenções devem combinar proteção da vida selvagem, desenvolvimento social e educação cultural. Ela aponta que, no sudoeste, a infraestrutura de transporte facilita a exportação de escamas, o que pode acender novos fluxos de comércio caso haja mudanças de mercado.
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